A politização da tragédia

Em dois textos que publiquei no “Duas Caras”, o primeiro em 30 de junho e o segundo em 14 de julho, tentava “adivinhar” o que iria acontecer no rescaldo da tragédia de Pedrógão e não só.

Estava longe de imaginar que um silencioso decoro inicial, na abordagem aos trágicos acontecimentos que enlutaram o país, não era o resultado de uma vontade refletida e sentida, antes aguardava o momento ideal, para a explosão demagógica.

Afinal, aquilo a que hoje assistimos revela-nos que foi sol de pouca dura, o recato perante tão doloroso acontecimento.

Agora, à boleia dos grandes incêndios que flagelam o país, que eram facilmente previsíveis, decidiram abrir o dossier de Pedrógão, explorando o que de mais macabro uma tragédia pode causar. O desplante foi tão longe, acerca do número de vítimas, que uma cidadã, sem um estatuto que tal lhe recomende, resolveu, sabe-se lá porquê, vasculhar as cinzas da tragédia, tentando encontrar algo de que precisava, para dar corpo à sua estranhíssima preocupação.

A atitude desta cidadã é de todo incompreensível, mas o mais incrível, revelador da perversa conduta que começa a grassar entre nós, tem a ver com o posicionamento de certa imprensa, que deu asas à especulação que tal sujeita havia alimentado, servindo-lhe de suporte a uma pretensa credibilidade, que de credível nada tinha.

Em contraponto, com tal promoção, iam-se menorizando e pondo em causa instituições reconhecidas, responsáveis pela investigação e divulgação do que se impunha ser do conhecimento público. Tais entidades fizeram-no, não no momento em que a demagogia e o populismo o pretendia, mas quando entenderam possuir dados objetivos, deitando por terra o oportunismo, de todos quantos tinham desrespeitado o decoro, que tais acontecimentos sempre devem considerar.

A contínua escalada dos incêndios florestais, continua a ser aproveitada demagogicamente, como se tudo isto resultasse da incompetência do Governo, da Ministra da Tutela, do SIRESP, dos Bombeiros Voluntários, etc, etc, etc… Neste particular, quem quiser perceber o porquê de tudo isto, que oiça os bons especialistas que, de quanto em vez, convidam para abordar cientificamente o tema. Então, concluir-se-á, facilmente, que as condições climatéricas excecionais (que podem ter vindo para ficar) dizem-nos que tantos incêndios em simultâneo e com a ferocidade que revelam, dificilmente cedem ao combate tradicional. Isto acontece em Portugal e noutros pontos do globo, com condições climatéricas similares às que flagelam hoje o nosso país. Se tais condições não se alterarem, vamos ter, até finais de setembro, as tradicionais carpideiras que, perante a efetiva desgraça, banalizam o que exige seriedade responsável.

Face a tantos sinais de profunda preocupação, de resultados que, sem demagogia, se podem considerar catastróficos, os parlamentares, mesmo “ardendo” neste cenário, não foram capazes de encontrar um consenso, que os despisse de teses mesquinhas, invocadas para não acordarem uma lei, tendente a começar por antecipação, o combate à devastação da nossa floresta.

Impunha-se, visando um futuro melhor para todos nós, um rasgo de responsabilidade plural, que conduzisse, sem tibiezas, a uma solução que, a médio prazo, integrasse todos quantos são atores, de uma forma ou de outra, nas tragédias que se avizinham.

Daqui a alguns anos, quando algum destes responsáveis quiser dar-nos lições sobre o tema, particularmente nas horas mais dolorosas, lembrar-lhe-emos o passado que não honrou e ousaremos atirar-lhe com a celebre frase latina medici cura te ipsum (médico cura-te a ti mesmo). É a resposta à sua falta de conduta cívica e de elevação responsável, que lhe faltou na hora da decisão, que não tomou por falta de coragem política.

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).