Trabalho

Voltar de férias voltar ao ritmo de trabalho é sempre uma tarefa difícil. Primeiro, as férias parecem sempre curtas demais e a ausência de uma rotina, torna difícil a volta à engrenagem de quem, como eu, tem um horário a cumprir e por isso, obedeço a certos rituais como acordar todos os dias à mesma hora, preparar-me para sair de casa, fazer o mesmo caminho para o trabalho todos os dias e, no final do dia, fazer o caminho inverso.

Na verdade, esta coreografia diária parece-me um bocado desumanizante. De segunda a sexta-feira, o ser humano obedece a esta dança sem ter em conta o seu próprio estado de espírito, se está mais produtivo durante o dia ou à noite, se dormiu o suficiente. O que importante é produzir, fazer coisas, cumprir prazos. Não importa se produzimos coisas a mais, lixo a mais, se usamos mais recursos do que aquilo que o nosso planeta nos pode dar. As pessoas estão ao serviço de um tipo de economia que suga vida e recursos, ao contrário daquilo que é suposto: usar os recursos naturais de forma responsável e sustentável e distribuir bens de uma forma socialmente justa.

Algures na história alguém nos convenceu que nascemos para trabalhar. Olhamos para o trabalho como uma obrigação social e não como uma forma de nos realizarmos pessoal e profissionalmente. Questionar esta obrigatoriedade é tabu, é meio caminho andado para sermos párias de uma sociedade que nos apelidará de parasitas e preguiçosos.

A questão aqui não é gostar/querer trabalhar ou não. É trabalhar para quê, por quem e para quem. É natural do ser humano querer ser útil e desempenhar um papel na sociedade. Quem não tem trabalho é como se não existisse, como se não desempenhasse uma função. Afinal, somos aquilo que fazemos, não é? Quando nos perguntam quem somos por norma respondemos com aquilo que fazemos, logo pensar no trabalho como uma mera questão de sobrevivência e trocar o nosso tempo por dinheiro tira sentido à nossa vida.

Atendendo aos níveis salariais em Portugal, pergunto: se uma pessoa trabalha a tempo inteiro e se aquilo que ganha é apenas para pagar contas, passando a última semana do mês a fazer malabarismos financeiros para esticar o ordenado, não é esta uma forma de escravatura moderna?

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.