Casa Amarela| É só amor, bochechas e vinho

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“Numa casa portuguesa fica bem pão e vinho sobre a mesa. E se à porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa com a gente. Fica bem esta franqueza, fica bem, que o povo nunca desmente. A alegria da pobreza está nesta grande riqueza de dar e ficar contente. Quatro paredes caiadas, um cheirinho à alecrim, um cacho de uvas doiradas, duas rosas no jardim, um São José de azulejo, mais o sol da primavera, uma promessa de beijos, dois braços à minha espera… Há fartura de carinho, e a cortina da janela é o luar, mais o sol que bate nela… Basta pouco, poucochinho p’ra alegrar, uma existência singela… É uma casa portuguesa, com certeza! É, com certeza, uma casa portuguesa!!!”

Reinaldo Ferreira, Vasco Matos Sequeira e Amália Rodrigues

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A ronda gastronómica de hoje leva-nos à Casa Amarela. Um restaurante especializado em comida tradicional portuguesa que foi elevada a outro patamar devido à utilização de ingredientes de grandíssima qualidade, umas mãos abençoadas da Chefe Virtudes Aveiro (não, não é da família do Ronaldo, não lhe perguntem mais isso :-P) e de uma gestão apaixonada por parte do dono Nuno Castro. Não nos devemos deixar enganar pela altivez da comida tradicional vestida de gala, este lugar tem muita alma.

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A atmosfera é íntima, rústica, mas com classe. Paredes com granito, portas e janelas em madeira, adereços do antigamente e cerâmica do presente.

Este ambiente aconchegante convida-nos a sentirmo-nos como em casa, até nisso o nome fica-lhe bem 😛 Situado no centro histórico da cidade, apresenta um ambiente rústico mas muito confortável, pintado em tons de modernidade.

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O menu é curto mas muito bem trabalhado para que possamos ter certeza de que cada prato é perfeito e ponderado, e não apenas para encher a carta. Começamos com umas gambas quentes, levemente picantes, bem rijas e com a salsa que lhes realçam a frescura. Quando vi as gambas com casca, percebi imediatamente que a Chefe, é rica em Virtudes. A casca “carrega” o camarão de sabor e torna o molho que o acompanha muito mais rico, denso e saboroso.

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Comecei a comer com talheres, mas logo me deixei disso, não há melhor que comer uma iguaria destas com as mãos, mas afinal estamos ou não numa casa portuguesa? Estamos com certeza!!! Façam como eu, e se conseguirem resistir a lamber os dedos pago-vos um fino 😛 Os frutos tropicais, a maçã verde e a acidez do Casa de Sezim Grande Escolha 2016 foram a companhia perfeita para estes frutos do mar.

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Seguiu-se o polvo, crocante por fora, quase que levemente fumado, e por dentro gulosamente tenro e suculento. O tempero é extraordinário, sem sal adicionado, o salgado que o polvo carrega veio da água em que vivia, uma vez que foi congelado na água do mar. É mesmo muito bom!!! Precisava de um branco com barrica, especiado e cítrico, o Pato Frio Grande Escolha Antão Vaz 2014 deu-lhe isso e ainda cremosidade, ameixa amarela e aromas florais. Só mais uma nota, durante a gravidez e após a Bia ter nascido a minha princesa mais velha nem podia sequer ouvir falar em polvo, pois bem a minha esposa comeu e chorou por mais. Haverá melhor elogio que este?!?

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Mais tarde, bacalhau com natas e salada mediterrânea. Este bacalhau não se deveria chamar com natas mas sim, com mozzarela. Tão cremoso quanto delicioso, o sabor do bacalhau no creme não é tão forte como se pensaria porque há outros ingredientes fortes para chamar a atenção do nosso palato. A noz-moscada é apenas uma delas, que tornam o prato tão harmonioso quanto complexo. Apetece-me dizer que este é o Pinot Noir dos bacalhaus com natas que comi até hoje.

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E depois ainda há o queijo, minha nossa, tão bom!!! Um mozarela rico em líquido para que durante a confeção não seque, e fique com aquele aspeto guloso. Não tenho problemas nenhuns em dizer que foi o melhor bacalhau com natas que comi até hoje. Até as natas foram trabalhadas, ou pelo menos assim me pareceu no palato, foram reduzidas para concentrar sabor. Um prato tradicional no nome, mas contemporâneo na textura, confeção e ingredientes. Esta delicia em forma de conforto está na carta do restaurante há 5 anos e faz as delicias de portugueses e estrangeiros, parabéns Chefe 😛  O Duorum Colheita Branco dotou o bacalhau com frutos toranja, maracujá, pêssego e de uma acidez deliciosa.

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O serviço é impecável, com um bom equilíbrio entre, profissionalismo, competência, atenção e posso mesmo dizer amizade. É o tipo de serviço que está sempre lá, mesmo que não reparemos nele. Qualquer pedido é atendido na hora – quando pedimos mais espaço para o carrinho da bebé, antes de acabarmos a frase já o carrinho estava arrumado rapidamente e com descrição, o copo de vinho nunca está vazio, a mesa sempre limpa e quase que não damos conta de as coisas acontecerem.

Voltando à comida, e depois do memorável bacalhau, ainda assim, o meu prato favorito, já há alguns anos, são as Bochechas de Porco Preto. Confitadas em vinho tinto e cozinhadas sem pressa, porque tudo o que é bom é para ser feito com calma.

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O resultado são pedaços de carne untuosos, ricos, a desfazerem-se no prato e incrivelmente macios. A carne era tão leve que quase que não era necessário mastigar. Ricas, aromáticas, levemente doces e conjugadas com o purê de batata amanteigado, são uma criação que ainda hoje me fazem salivar 😛 Para acompanhar um grande prato só mesmo um grande vinho, o Bafarela Reserva 2015, com cerejas, morangos, violeta e pimenta. Intenso, fresco e persistente foi o par ideal das bochechas de porco preto. Para os enófilos, há ainda na Casa Amarela, uma experiencia vínica (que fica entre os 5 e os 12 euros, dependendo do número de copos e a gama dos vinhos escolhidos), que nos põe no copo o que de melhor há no país.

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As sobremesas são tão deliciosas quanto as entradas e pratos principais, mas mais que isso, são inteligentes. As mousses de chocolate e de manga são o exemplo perfeito disso. Empratadas com descrição, guardam o destaque para os sabores, frescos, cítricos, doces e com toques de irreverência e boa disposição. Têm conta, peso e medida, para que a refeição culmine da melhor forma possível.

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Seja qual for o prato que estejamos a degustar, acho que a melhor maneira de descrever a experiência na Casa Amarela é que há fartura de carinho, de todas as vezes que somos servidos. Os funcionários têm a riqueza de dar e ficarem contentes, a comida é arrebatadora, o vinho pensado para criar um grande momento eno-gastronómico, e todo o conjunto, mais que cumpridor é amigo.

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Saio sempre de lá com a sensação que mais tarde encontrarei dois braços à minha espera, e é por isso que acho que esta musica de Amália Rodrigues fica bem à Casa Amarela. Só é pena que não acabe assim: Basta pouco, poucochinho p’ra alegrar, uma existência singela…é só amor, bochechas de porco preto e vinho 😛

Obrigado Nuno pelo convite, pela amabilidade com que nos recebeste e por teres transformado, na minha cidade, uma oficina mecânica nesta Casa Portuguesa, que tão bem sabe receber. Fica-te bem essa franqueza com que serves os teus clientes à mesa, e nunca te preocupes pois o povo nunca desmente. No patamar em que te inseres, a dos sabores tradicionais, com um toque de modernidade, em atmosfera descomprometida, a Casa Amarela é o melhor restaurante em Guimarães, com certeza.

Restaurante Casa Amarela
Largo de Donães, 16 a 24
4800-408 Guimarães
253 292 629 / 913 355 111

http://www.casaamarela.pt/