A mãe de todas as batalhas… científicas

Considerado como a epidemia moderna, o cancro tem sido investigado como nunca outra doença o foi anteriormente. Os meios alocados à investigação na área oncológica são gigantescos e mesmo assim parece que esta cruel doença está sempre um passo à frente… Talvez por isso já todos estamos habituados a anúncios de tratamentos muito promissores e inovadores, os quais, passado algum tempo, se esfumam quando se comprova não existirem evidências científicas da sua eficácia.

Nos últimos anos tem-se observado que certos tipos de cancros apresentam taxas de cura, ou remissão completa, mais elevadas, sendo que tal acontece maioritariamente em cancros cuja deteção precoce permite um combate mais efetivo. Os dados hoje disponíveis mostram-nos que cerca de 70% dos cancros podem ser tratados caso sejam detetados numa fase suficientemente precoce do seu desenvolvimento. Por isso, não será de estranhar que hoje se assista a um investimento crescente na deteção precoce desta doença.

Um exemplo recente deste investimento é o levado a cabo por uma startup do Silicon Valley, chamada Grail (grail.com). Esta empresa, em conjunto com várias clínicas e hospitais, começou a anunciar em outdoors um pedido de voluntários para doar sangue. O curioso do anúncio é que a frase usada no mesmo é “Ajude a parar o cancro”. Os voluntários que aceitem doar sangue ganham um vale de compras de 25 dólares e sabem que a sua doação permitirá ajudar a perceber se um exame de sangue permite detetar a existência de cancro.

Esta empresa começou a sua atividade assumindo que a “cura” para a maioria dos cancros não passará por um novo medicamento, mas por testes que possam identificar os tumores num estágio inicial, quando estes ainda podem ser tratados com sucesso. Os responsáveis pela empresa acham que conseguirão fazer isso usando uma sequenciação de ADN de “alta intensidade” para analisar amostras de sangue, numa tentativa de identificar no sangue material genético que é espalhado pelos tumores ocultos.

A empresa já conseguiu angariar mais de mil milhões de dólares de capital de investimento, uma quantia que a coloca entre as três principais empresas privadas de biotecnologia. Apesar da impressionante soma, a empresa necessitará de avultadas quantias de dinheiro para conquistar um desafio tecnológico tão relevante, oneroso e complexo quanto outros com maior impacto mediático, como são o desenvolvimento de veículos autónomos ou as novas formas de Inteligência Artificial. No website da empresa é possível ver-se que entre os vários investidores estão várias empresas consolidadas na área da biotecnologia, mas também outros investidores menos habituais nestas áreas, tais como Jeff Bezos, o célebre fundador da Amazon, ou Bill Gates.

Uma curiosidade que não é de somenos importância nesta história é o facto de a empresa ser liderada por Jeff Huber, um ex-executivo da Google, cuja esposa morreu de cancro antes de ele se tornar CEO da Grail. Em declarações ao site MIT Technoloy Review, Hubber diz acreditar que a vida da sua mulher poderia ter sido salva com o tipo de teste que estão agora a tentar desenvolver, eventualmente complementado com uma cirurgia de menor dimensão.

Mesmo que a ideia subjacente à identificação precoce do cancro no sangue não seja nova, a componente inovadora consiste em rastrear pessoas que não tenham qualquer sintoma da doença. A relevância e atualidade desta técnica fica bem evidente no destaque que, há pouco mais de um mês, o Fórum Económico Mundial (WEF) lhe deu, colocando esta técnica, também chamada de “biópsia líquida”, na primeira posição de um “top 10” das tecnologias emergente deste ano. O impacto desta técnica está ainda por apurar, mas ao usar este tipo de diagnóstico no caso do cancro tem uma razão óbvia, a sua deteção precoce pode, segundo os especialistas, levar à cura em dois terços dos casos. Apesar disso, este tipo de teste pode ter desvios significativos nos resultados, os quais poderão desencadear falsos alarmes e, entre outras coisas, levar a que os pacientes procurem tratamentos desnecessários.

A empresa acredita que os testes desenvolvidos vão permitir reduzir custos com os tratamentos e, mais do que isso, terão a capacidade de indicar a localização do cancro, o seu grau de agressividade e, caso já esteja em estado mais avançado, qual o tratamento mais efetivo.

Contudo, nem tudo são boas notícias, pois há alguns investigadores que desconfiam desta abordagem, sobretudo por considerarem que nem todos os casos de cancro geram estes sinais ou que os mesmos possam ser tão ténues que sejam indetetáveis. Por outro lado, o custo atual do teste é ainda proibitivo, uma vez que se trata de um processo tão longo e complexo que a sua execução custa vários milhares de dólares para se testar uma única amostra. Acresce ainda a necessidade de garantir que os testes sejam extremamente fiáveis uma vez que, mesmo com uma baixa taxa de “falsos positivos”, se poderia criar uma espécie de epidemia de ansiedade e medo da possibilidade de poder ter cancro.

Mas onde é que entra a tecnologia nesta história?

A técnica usada pela empresa para sequenciação do ADN obriga a uma análise detalhada de fragmentos infinitesimais à procura de sinais de ADN deixados pelas células tumorais. Para conseguir fazê-lo, a empresa possui um grande número de máquinas rápidas de sequenciação do ADN, cujo preço individual ronda o milhão de dólares.

A técnica de análise do chamado “ADN flutuante” no sangue remonta à década de 1960, mas é a capacidade tecnológica atual que faz com que esta técnica possa agora ser utilizada com mais eficiência.

Os dados resultantes da sequenciação são processados em supercomputadores, os quais analisam e armazenam toda a informação num processo informático de tal forma complexo que faz com que esta empresa tanto possa ser considerada como uma relevante empresa da área da biotecnologia como da área do software.

Para se ter uma ideia mais concreta da complexidade do processo, basta referir que a empresa recolhe cerca de 1.000 gigabytes de dados brutos a partir de uma única amostra de sangue de cada voluntário, o equivalente a cerca de 500 horas de vídeo ou o equivalente a toda a memória existente nos discos de 3 ou 4 computadores que usamos no nosso dia-a-dia.

A dimensão dos dados pode ser de tal forma que, caso a empresa passe a realizar estes testes de forma mais alargada, rapidamente se tornará na primeira operação zettabyte (número que corresponde a um 1 seguido de 21 zeros). Para termos uma noção mais “palpável” da escala, e se consideramos que 1 GB (gigabyte) pode armazenar até cerca de 1.000 minutos de música, 1 zettabyte equivaleria a… 2 mil milhões de anos de música.

Pedro Arezes, 44 anos e natural de Barcelos, é Professor Catedrático na Escola de Engenharia da Universidade do Minho e Diretor Nacional do Programa internacional MIT Portugal (www.mitportugal.org). Tendo orientado mais de 100 teses e dissertações, é coautor de mais de 400 publicações científicas. Ao longo dos últimos 20 anos, foi palestrante convidado em mais de uma centena de palestras em cerca de 15 países.