Uma promessa eternamente adiada

No meu primeiro dia de aulas no Liceu, na aula de Português, a professora recebeu-nos com um sorriso, esperou que nos sentássemos e começou a escrever no quadro uma frase que ficaria para sempre na minha memória e que se tornaria, de certa forma, um lema de vida: “Se não souberes aonde vais, arriscas-te a demorar demasiado tempo a lá chegar”.

No sábado saí do estádio a questionar tudo e todos, mas acima de tudo, a questionar se saberíamos realmente aonde queremos chegar, quais são os objetivos para este Vitória e se alguém tem verdadeiramente um plano para lá chegar.

Esta época temos novamente a oportunidade de dar o salto, de nos consolidarmos como uma referência no futebol português e de deixarmos a nossa marca na Europa.

Mesmo sendo eu uma eterna crente no que diz respeito ao Vitória, tinha consciência que esta não seria uma época fácil: as boas exibições da época passada iriam atrair a atenção para os nossos melhores jogadores que acabariam por ser vendidos, as probabilidades de os jogadores emprestados voltarem eram quase nulas e a própria continuidade de Pedro Martins era questionável. Tornava-se imperativo manter a espinha dorsal da época passada, suprimir as lacunas criadas pelos jogadores que sairiam e reforçar a equipa ao máximo para que pudesse estar ao nível dos grandes desafios que se avistavam.

As saídas aconteceram, os emprestados não voltaram, reforçaram-se algumas áreas e fez-se um grande esforço para manter jogadores essenciais como Pedro Henrique, Hurtado e Cellis. A sorte, como sempre, não quis nada connosco e as lesões invadiram o balneário: Konan regressou apenas esta semana aos treinos, Francisco Ramos parece ter uma nuvem negra das lesões em cima de si, Pedro Henrique só regressou depois da Supertaça e Rincón tornou-se uma espécie de bomba relógio para a qual ninguém encontrava o manual de instruções (acho que já encontraram). Rescindiram-se contratos e emprestaram-se jogadores que deixaram algumas dúvidas no ar.

A formação voltou a ser, não por que assim foi planeado, mas porque assim nos vimos obrigados, a principal fonte dos reforços do Vitória e as questões aumentam. Como se isto não bastasse, alguns dos elementos que ficaram, ficaram contrariados e persistem em mostrar em campo um nível competitivo que fica muito aquém daquele que nos habituaram no passado.

Prometeram-nos um Vitória competitivo, um Vitória Europeu, um Vitória ao nível dos seus adeptos. Prometeram-nos um Vitória com entrega, paixão e alma. Prometeram-nos continuidade e reforços…

Em vez disso, deram-nos um fragmento de Vitória perdido na imensidão da sua existência. Um Vitória sem alma, sem entrega e, pior de tudo, um Vitória sem rumo… Um Vitória que se desfez e que não se soube reconstruir. Não serve de nada contestarmos o inegável: a fraqueza do plantel ficou bem visível, as lacunas não foram colmatadas e aqui estamos nós na terceira jornada do campeonato com mais de uma dezena de golos sofridos.

Continuo a não perceber o não investimento no reforço da equipa. A situação financeira do Vitória está estável, as vendas de jogadores e o apuramento para a fase de grupos da Liga Europa permitiram a entrada de valores avultados nos nossos cofres, mas o investimento em jogadores foi reduzido (não podemos cair no erro de dizer que não nos reforçamos, mas o reforço da equipa fica muito aquém daquilo que era exigido para uma época tão importante como esta). O mercado ainda está aberto e (crente como sou) continuo a acreditar que até 31 de Agosto isto irá melhorar, mas receio que já teremos perdido demasiado tempo, tempo esse que poderá ser crucial na conquista dos nossos objetivos.

Eu ainda continuo a acreditar que Pedro Martins conseguirá, com muito trabalho, construir uma boa equipa com os elementos que lhe foram dados, ainda continuo a acreditar que a aposta na formação é fundamental na construção do Vitória que todos desejamos, mas estamos numa luta contra o tempo e estamos claramente a perdê-la.

Esta não era uma época para lutar contra o tempo – já temos muitas lutas agendadas e a guerra vai ser demasiado longa para perdermos tempo. Esta não era uma época para apostar na inexperiência e na formação, mas sim na experiência e em jogadores que já estivessem preparados para as lutas que se avizinham. Esta era uma época onde precisávamos de saber desde sempre aonde íamos e como lá chegar para não demorarmos demasiado tempo a lá chegar e nos arriscarmos a já não haver nada pelo que lutar quando lá chegarmos.

Na sexta-feira ficaremos a saber quais serão os nossos adversários na Liga Europa, no sábado jogamos contra o Paços de Ferreira e depois teremos uma pausa onde temos (mais) uma segunda oportunidade para (re)preparar a equipa, suprimir algumas lacunas e, acima de tudo, percebermos onde queremos chegar e qual o caminho a percorrer. Queremos continuar a ser a promessa eternamente adiada do futebol português ou queremos finalmente consolidarmo-nos como uma grande equipa? Queremos continuar a ter uma época boa seguida de uma época desastrosa ou queremos começar um processo de continuidade rumo ao sucesso?

Queremos, merecemos e exigimos mais! Queremos o Vitória com futuro que nos foi prometido. Queremos uma equipa ao nível dos desafios que se aproximam.

A desilusão dos resultados e a incerteza do futuro não abala o nosso amor e muito menos o nosso apoio. Doeu e continua a doer ver o nosso Vitória assim (desta vez doeu e não foi lindo de se ver). Doeu e continua a doer que os nossos gritos de descontentamento tentem ser silenciados. Doeu e continua a doer saber que que as nossas palavras de descontentamento não têm qualquer tipo de valor. Doeu e continua a doer saber que a única coisa que podemos fazer é cantar e apoiar, mas nós continuaremos a fazê-lo sempre e mais alto porque ser Vitória é algo que nos estrutura e justifica. Nós continuaremos presentes em todos os jogos a apoiar incansavelmente na esperança de que um dia o Vitória se torne o Vitória que neste momento só existe nas nossas mentes.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.