O Daniel deu-me um soco no estômago

“Eu não sou um cliente, um consumidor nem um utilizador de um serviço. Eu não sou um preguiçoso, um pedinte, um mendigo, nem um ladrão. Eu não sou um número de Segurança Social ou um número num ecrã. Eu paguei todas as minhas dívidas, nunca um cêntimo a menos e orgulho-me de fazê-lo. Eu não faço vénias, mas olho os meus vizinhos nos olhos e ajude-os quando posso. Eu não aceito nem procuro caridade. Meu nome é Daniel Blake. Eu sou um homem, não um cão. Como tal, exijo meus direitos. Exijo que você me trate com respeito. Eu, Daniel Blake, sou um cidadão, nada mais e nada menos.”

Quem ontem se deslocou à Praça da Oliveira, para aliviar o espírito depois de um dia de trabalho, com uma sessão de cinema, no contexto no Cinema em Noites de Verão, não contava certamente com o soco no estômago com que “I, Daniel Blake” no acerta em cheio.

A citação escrita em cima é o discurso que Daniel tinha preparado para a sua audiência quando recorria de uma decisão de uma “técnica profissional de saúde” que o considerava apto para trabalhar, enquanto a sua médica e cirurgiã lhe garantia que ainda não estava em condições para tal, depois deste ter sofrido um ataque cardíaco. Daniel teve o segundo ataque cardíaco enquanto se envolveu numa luta absurda, desigual, quase kafkiana com um estado burocrático, que ao invés de proteger e de assegurar o bem-estar dos seus contribuintes quando eles mais precisam, faz exactamente o oposto: esquiva-se às suas obrigações atrás de um discurso mecanizado e hermético e de processos altamente burocráticos e informatizados, deixando de fora os cidadãos que não têm condições/conhecimento para se defenderem nem forma de exigirem dignidade e respeito no seu tratamento.

Este texto não pretende ser sobre o filme, mas o filme proporciona-nos um momento de lucidez, o que nesta sociedade em que tudo acontece a um ritmo vertiginoso e em que todos somos consumidores, é raro. Dizia uma das pessoas que me acompanhou no visionamento do filme “isto não é aceitável” e, contudo, acontece todos os dias. Diria que quem um dia por alguma razão, precisou de ajuda do Estado, já teve o seu momento “Daniel Blake” – o momento em que somos impotentes e pequenos e lutamos contra o Estado que nos trata como números, que é assistencialista em vez de solidário, que nos obriga a cumprir todas as nossas obrigações tributárias com multas pesadas por atrasos e afins, mas que demora nas respostas sociais quando mais precisamos.

Não é aceitável e, no entanto, o que não falta nas repartições da segurança social ou dos centros de emprego são “Daniel Blakes”. Estamos adormecidos, temos os olhos nos “smartphones”, mas não olhamos os nossos vizinhos nos olhos, nem vemos o que se passa à nossa volta.

Qualquer um de nós é um potencial “Daniel Blake”. É urgente perceber – a história já nos mostrou isso e continua a mostrar que os direitos que adquirimos até aqui não estão assegurados para todo sempre – há, afinal, políticos no nosso parlamento que afirmam que todos os direitos adquiridos são referenciáveis. É nossa obrigação militarmos em defesa de um Estado social que garante acesso universal à saúde, à educação, habitações dignas para assegurarmos uma sociedade socialmente mais justa. O meio em que nascemos não pode determinar o resto das nossas vidas – resta ao Estado assegurar a igualdade de oportunidades independentemente da classe social a que pertencemos.

Em tempo de campanha política, vale sempre a pena relembrar do que esta democracia e do que as eleições representam no fundo: delegamos a nossa voz (e poder) em alguém que nos representa e que deve representar a nossa visão do mundo e ter um papel activo que faça com que a sociedade se desenvolva no sentido que queremos. Façamos ouvir a nossa voz.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.