Amor, Toural e Caxinas
De onde me encontro, deitada no conforto desta marquesa, no embalo das agulhas que me perfuram a pele e desenvolvem uma nova tatuagem, há a vista para o Toural. O Toural. O eterno Toural, que até nunca lhe havia dado grande importância quando era um arrojado labirinto de flores e assentos ondulados, é agora quase que como uma moldura, um Rembrandt.
Daqui posso sentir amor. É que não digo aquele amor de paixão, ou amor de se ver, amor cárita ao quadrado, não, nada disso, digo, assim, ora, amor humano, um respeito amororso, diga-se. É como se este pedaço da cidade, redesenhado com pompa e circunstância, fosse um santuário do amor, uma basílica a céu aberto do respeito pelo outro. E quem lá sonhou em estender aquela varanda dourada, juro que sei que não melhor o fez do que pela causa da paixão. E lá se pode ver tanto amor engatado na coragem dos aloquetes.
Daquilo que sei, mais do que um alpendre de promessas amorosas, aquela peça dourada é não mais do que um ácido cerebral que nos obriga a pensar em alguém, algures no tempo, alhures no mundo. A mim, em mim, lembra-me um grande amor, lembra-me passeios pelas Caxinas onde me cruzo com tantas caras desta cidade, lembra-me da primeira vez de assumir a minha sexualidade, daquele primeiro beijo de mulher no aconchego do cheiro insalubre de sargaço e da expiração do mar.
