Diana, Diana, Diana

Amor, Toural e Caxinas

De onde me encontro, deitada no conforto desta marquesa, no embalo das agulhas que me perfuram a pele e desenvolvem uma nova tatuagem, há a vista para o Toural. O Toural. O eterno Toural, que até nunca lhe havia dado grande importância quando era um arrojado labirinto de flores e assentos ondulados, é agora quase que como uma moldura, um Rembrandt.

Daqui posso sentir amor. É que não digo aquele amor de paixão, ou amor de se ver, amor cárita ao quadrado, não, nada disso, digo, assim, ora, amor humano, um respeito amororso, diga-se. É como se este pedaço da cidade, redesenhado com pompa e circunstância, fosse um santuário do amor, uma basílica a céu aberto do respeito pelo outro. E quem lá sonhou em estender aquela varanda dourada, juro que sei que não melhor o fez do que pela causa da paixão. E lá se pode ver tanto amor engatado na coragem dos aloquetes.

Daquilo que sei, mais do que um alpendre de promessas amorosas, aquela peça dourada é não mais do que um ácido cerebral que nos obriga a pensar em alguém, algures no tempo, alhures no mundo. A mim, em mim, lembra-me um grande amor, lembra-me passeios pelas Caxinas onde me cruzo com tantas caras desta cidade, lembra-me da primeira vez de assumir a minha sexualidade, daquele primeiro beijo de mulher no aconchego do cheiro insalubre de  sargaço e da expiração do mar.

César Elias, 31 anos, escritor vimaranense. licenciado em Estudos Culturais pela Universidade do Minho, editou em 2010 “secretária antiga” (poesia), em 2012 “América” (romance), “A Cova da Moura”, (guião, bienal de Cerveira 2012). Publica contos, poemas e crónicas em alguns jornais.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.