Diana, Diana, Diana

SOPHIA

Esta é uma história, e nunca soube se uma história de amor ou de outra coisa qualquer. Ficaria eternamente agradecida se mo dissessem.

Há catorze anos atrás, quando ainda os telefones eram coisa pouco sofisticada, quando a internet era um bolo ainda cru, a comunicação linda e cruel, eu conheci Sophia. Bem, eu não a conheci propriamente, à primeira, cara a cara. Sem sabermos bem como, trocávamos cartas numa periodicidade quase mensal. Era empolgante. Dois desconhecidos a fazer relato da vida um para o outro sem nada a esconder, sem que tivessemos que assinar qualquer tipo de satisfação pelo que contássemos. O brilhante é que não nos víamos e queríamos saber sempre mais. Ganhamos estima entre nós. E claro que isso ia acendendo uma chama. Duas miúdas sedentas por comer o mundo.
Lá chegou a hora de apresentar-mos os corpos de uma e de outra, mas até nisso soubemos fazer com que fosse especial. Poderíamos ter marcado um encontro aqui em Guimarães, por exemplo, ou até mesmo no limiar entre a Póvoa e Vila do Conde, a terra dela. Mas não. Optamos pela simplicidade de trocar uma fotografia tipo “passe”, carinhosamente colocada no envelope que havia de chegar a seguir. E assim nos apresentámos; “Olá eu sou a Diana”, “Olá eu sou a Sophia”. Bonito. E durante algum tempo assim foi, escrever e olhar aquela pequena fotografia.

O nosso primeiro encontro foi a coisa mais espetacular de sempre. Tão espetacular que nem chegou a ser um encontro, por assim dizer. Foi numa tórrida tarde de verão. Eu aceitei o convite dos meus tios para embarcar com eles rumo ao calor do Algarve. Os meus tios tinham uma caravana, uma verdadeira casa sobre rodas, e era bonito fazer a longa viagem até ao fim da terra pelas estradas nacionais. Nesse dia ardente, algures numa interminável fila de trânsito do Porto, a caravana dos meus tios avançava passo a passo. Nas outras faixas iam outras pessoas, naturalmente, poucas com a benção de um ar condicionado. Um eterno para e arranca. E, de súbito, incrivelmente, tão improvavelmente, fixei o meu olhar num dos passageiros de um autocarro que nos acompanhava na marcha vagarosa. Qual seria a probabilidade de esse passageiro ser nada mais nada menos do que Sophia? A minha Sophia, tão pequenina naquela fotografia e tão real, colada ao vidro daquele autocarro? A probabilidade era escassa mas a realidade é que era mesmo ela, assim como era eu mesmo deste lado. E assim foi o nosso primeiro encontro. Sorrimos estupidas, incrédulas, e logo nos amarramos a escrever muito mais…

Daqui em diante foi uma história e tanto. Estivemos juntas, dormimos juntas, descobrimos que gostamos das mesmas músicas, dos mesmos filmes, dos animais, dos mesmos escritores, dos mesmos cheiros, das mesmas cidades, das mesmas praias, das mesmas formas de estar na vida, que desejaríamos um futuro semelhante, correr o mundo e respirar cultura. Descobrimo-nos tão bem, tão saborosamente…

Hoje não há correspondência. Já não lhe vejo as mãos. Tomara eu voltar a perder-me na imensidão de uma uma fila de trânsito quente e que me trouxesse de volta aquele abraço.

César Elias, 31 anos, escritor vimaranense. licenciado em Estudos Culturais pela Universidade do Minho, editou em 2010 “secretária antiga” (poesia), em 2012 “América” (romance), “A Cova da Moura”, (guião, bienal de Cerveira 2012). Publica contos, poemas e crónicas em alguns jornais.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.