Diz-me com quem andas

Em alturas de grande carga de trabalho, dá-se o caso que é impossível a alguém, a mim por exemplo, de acompanharmos as notícias com a atenção que lhes são devidas.

Daí que tenha reparado que nas últimas semanas, a Coreia do Norte, tenha sido presença habitual em telejornais e imprensa escrita, devido ao lançamento de mísseis que cujo destino seria a ilha de Guam. Para além disso, ontem cruzei-me também com uma notícia de que representantes da Coreia do Norte teriam estado presentes na Festa do Avante e teriam recebido uma “saudação especial”. Ora, vi esta notícia num blog assumidamente de esquerda reclamando com a publicação da dita notícia, dizendo que primeira estava mal escrita e era mal intencionada, porque afinal não houve numa saudação especial a uma comitiva da Coreia do Norte, mas sim a representantes de 7 ou 8 partidos/entidades internacionais, entre os quais estariam os tais representantes da Coreia do Norte.

Ora, eu não percebo. Todos sabemos o que acontece na Coreia do Norte. Aqui a questão é mesmo se a comitiva norte-coreana teve direto a uma saudação especial unicamente dirigida a si ou se foi em conjunto? Ou porque raio é que a Festa do Avante tem representantes da Coreia do Norte?

Em pessoas que se dizem de esquerda há, às vezes, uma tendência para se defender estes regimes totalitários que se dizem comunistas, porque são uma contra-corrente a um capitalismo selvagem e ultraliberal e não prestam vassalagem ao todo poderoso e auto-intitulado líder do Mundo Livre, os Estados Unidos da América.

Não sendo eu simpatizante da geo-política americana, não posso de forma nenhuma ser condescentente com países como a Coreia do Norte, China, Angola, só porque são uma “alternativa” aos Estados Unidos da América. Esta polaridade e esta coisa de defendermos causas/políticas cegamente sem vermos a quem estamos a dar a mão é perigosa. Uma ditadura seja ela de esquerda ou de direita é má e não serve os seus cidadãos.

Numa discussão há uns tempos sobre este mesmo tema, perguntam-me “mas estás a dizer que a liberdade é um direito absoluto?”  Sim, é exactamente isso que estou a dizer. A humanidade passou por um processo de evolução lento e complexo, de alguma forma desenvolvemos características que nos separam de todo o resto do reino animal, como a inteligência, consciência de nós próprios como indivíduos e livre arbítrio.

Por isso sim, a liberdade é e deve ser encarada como um direito absoluto. Porém, não há liberdade sem que os direitos humanos estejam assegurados. Tal como os homens na caverna de Platão, não há liberdade se não há conhecimento, cultura, se os direitos mínimos como o direito a uma vida digna, pão na mesa, trabalho, condições dignas de habitação, acesso universal à saúde e ao ensino não estão assegurados. Num mundo em que o meio em que nascemos continua a ser preponderante para a vida que vamos ter, não há liberdade.

Por tudo isto, não percebo como o PCP pode convidar um governo cujas atrocidades são (ainda pouco) conhecidas para a Festa do Avante, só por estarem do outro lado da cortina de ferro. Dizia-me o meu pai: diz-me com quem tu andas, que eu te direi quem és. E quanto ao PCP estou esclarecida.

E já que estamos a falar de amigos a quem damos a mão, vale a pena salientar que temos uma coligação a eleições ao nosso município da qual fazem parte, entre outros, o Partido Monárquico Português (!) e o Partido Pró Vida, entretanto rebaptizado em 2015 por Cidadania e Democracia Cristã – um partido cuja acção tem sido sobretudo contra os direitos reprodutivos da mulher. Estou, portanto, esclarecida também.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.