Setembro, o mês dos reencontros

Setembro é de novo um mês intendo de atividades que irão mobilizar os cidadãos, quer vivam nos centros urbanos, quer vivam nas freguesias mais longínquas dos mesmos. Em breve todos serão chamados a participar num ato eleitoral, apoiando propostas que se espera que sejam uma resposta ambiciosa e reflitam as suas necessidades não só atuais como a médio e longo prazo.

Hoje, o desafio maior que este concelho tem pela frente é o de fixar e atrair populações. Os turistas não constroem uma identidade, as populações residentes são quem a alimenta de forma permanente e a enriquece.

Este mês é também o do regresso às aulas, da partilha dos acontecimentos mais relevantes que tiveram lugar nesse intervalo, cada vez mais curto, que as férias representam e no qual a corrida para os horários, os transportes, as exigências de cumprimento curricular estiveram ausentes para a maioria dos jovens.

Muito se tem discutido sobre a indiferença dos jovens em relação à política! O que é que se faz para os aproximar?

Mantemos como calendário eleitoral para as eleições, que mais devem refletir a proximidade aos cidadãos, uma data que está em dissonância com os interesses dos jovens.

Num país onde a abstenção e os votos em branco já deviam ter sido objeto de uma reflexão profunda, como é que se espera que os jovens adiram a agendas partidárias em período de férias?

Durante meses foram juntando as suas economias para os festivais cuja publicidade é agressiva e começa bem cedo a atrair as suas atenções, esperaram para viajar nas viagens low cost, que com a mesma estratégia lhes foi apontando outros mundos e, um sem numero de oportunidades, ou, ficaram por cá agarrados a um part time para, pelo menos uma semana, vaguearem em grupo longe de compromissos e coisas sérias.

Com mais ou menos oportunidades as férias foram para quem estudava um pouco de tudo isto. Hoje com o ensino obrigatório e a dificuldade de entrar no mercado de trabalho as férias são sempre o momento ambicionado pela generalidade dos jovens que são, atualmente e em simultâneo, estudantes.

Como querem os políticos deste país que estes novos jovens se preocupem com o futuro quando eles querem prolongar o sabor doce de umas férias que acabaram?

Como querem que adiram aos hinos partidários quando nos seus ouvidos ainda ressoam os sons das suas bandas preferidas?

Como querem que participem quando, ao invés de lhes darem responsabilidades cívicas mais cedo, capacidade eleitoral aos 16 anos, alteram o conceito do que é ser jovem e prolongam a faixa etária que lhes diz respeito?

Uma sociedade que assume que não tem muito para oferecer, em termos de estabilidade e de promoção de autonomia, não quer de facto que os jovens tenham a oportunidade de discutir com os seus pares o seu futuro e, muito menos, que o façam cada vez mais cedo.

Não foram, mais uma vez, criadas condições para que os jovens se consigam expressar, falar e dar opinião sobre os temas que provavelmente são os que mais lhes devem interessar porque o futuro é deles.

Faltam espaços reais para que a comunicação aconteça. A família, o grupo de amigos, as escolas precisam de abrir o tempo para partilha de experiencias e emoções que são fundamentais para promover escolhas racionais onde se possam encontrar referencias e valores.

Os modelos familiares continuam como é normal a expressar representações sociais que estão distantes da desejada igualdade em termos de géneros. As praticas sociais de quem pode contribuir para que objetivamente a conciliação da vida familiar com a vida do trabalho seja uma realidade não saem do papel, se é que como politicas são do conhecimento dos interessados. Uma verdadeira parentalidade, na qual o pai tenha acesso aos seus direitos e os exerça são fenómenos recentes.  Estes podem ter uma expressão percentual interessante, mas insuficiente se tivermos em conta a situação da natalidade. A título de exemplo o número de pais que recorreu ao subsídio de paternidade duplicou nos últimos dez anos. Em 2005 foram 30%, em 2015 foram 62,6% só que estamos a falar de uma década em que a natalidade desceu atingindo valores preocupantes em 2016.

Os portugueses ficam satisfeitos por impor por decreto  a mudança seja ao nível da introdução de temas nos planos curriculares quando os seus agentes não tiveram preparação académica e pedagógica para muitos deles, e, nesta matéria não nos referimos só aos educadores mas também a um conjunto de profissionais qualificados que em diferentes áreas podem e devem ser responsáveis por mudar mentalidades e comportamentos,  seja pelas quotas disto ou daquilo que podem ser aceitáveis numa primeira fase, mas são absurdas quando há décadas alguns desses temas têm força de lei.

Vivemos numa sociedade marcada a vários ritmos e estas discrepâncias não são de todo ingénuas. Estamos bem distantes da compreensão de que pequenos gestos, reproduzidos por muitas pessoas, tendo muitos mais como beneficiários fazem a diferença.

Ainda faltam algumas semanas e vamos a tempo para que cada um, dos muitos que compõem as listas que se apresentam a sufrágio, vá ao encontro dos mais novos e discuta com eles o que também será para eles, o futuro do nosso concelho, o futuro do nosso país. Só assim poderemos combater a indiferença e a abstenção.

Luísa Oliveira, licenciada em Serviço Social , formadora e consultora. Presidente da Cooperativa Desincoop – Desenvolvimento Económico, Social e Cultural, CRL da qual é fundadora, iniciou  a sua intervenção politica como deputada municipal e anos mais tarde como vereadora da Câmara Municipal de Guimarães.