Convença-me a votar em si: André Coelho Lima

Por António Magalhães

Vídeo: qoob

André Guimarães Coelho Lima, advogado, licenciado em Direito pela Universidade Lusíada do Porto, é vereador sem competências delegadas eleito nas últimas eleições na lista Juntos por Guimarães.

António Magalhães: Eu sei que o Dr. André Coelho Lima não gosta de avaliar a atividade do atual executivo municipal porque – vou utilizar uma expressão sua – “isso compete aos comentadores”. Mas estou seguro de que é capaz de fazer um exercício de auto-avaliação àquele que foi o sei trabalho neste mandato, como é que o vereador André Coelho Lima esteve até este 2017?

André Coelho Lima: Fez o trabalho de casa, já viu as respostas que costumo dar e de facto é isso: eu acho que a avaliação do mandato de quem governa compete essencialmente aos vimaranenses, a avaliação do meu próprio mandato. De facto, não o gosto de fazer porque é sempre um juízo em causa própria. É quase uma questão mais pessoal, não é política. Também não quero fugir a essa responsabilidade, digamos assim.

Eu penso que aquilo que faltou neste mandato era aquilo que era muito evidente nos mandatos anteriores, apesar do mesmo partido. Faltou rasgo, faltou liderança, faltou sobretudo rumo.

AM: Vamos começar pela parte mais fácil: olhando para estes quatro anos, de que é que não gostou? O que é que apreciou menos naquilo que aconteceu ao longo destes quatro anos?

ACL: A impressão que eu tenho é essencialmente esta: eu até acho que o Partido Socialista é feliz no exemplo que utiliza do “continuar” como sendo uma expressão que representa aquilo que querem continuar a fazer. Eu penso que aquilo que faltou neste mandato era aquilo que era muito evidente nos mandatos anteriores, apesar do mesmo partido. Faltou rasgo, faltou liderança, faltou sobretudo rumo. Estar à frente de uma Câmara como Guimarães, que não é uma Câmara qualquer, exige uma linha de orientação estratégica clara, exige que saibamos para onde nos estamos a dirigir. Eu definiria este mandato: eu penso que foram as circunstâncias que condicionaram as políticas e não as políticas que condicionaram as circunstâncias.

AM: Um mandato reativo?

ACL: Um mandato reativo e de avanços e de recuos, de começa uma coisa e depois fica a meio, de vamos avançar e depois não avançamos. Mas essencialmente um mandato reativo.

AM: Permita-me relembrar alguns projetos de candidatura a Capital Verde, a via do Avepark, o enorme debate que teve no concelho. Não avalia positivamente esses factos?

ACL: A via do Avepark é um bom exemplo. A via do Avepark é uma reação a uma circunstância que é prévia. Qual é a circunstância que é prévia e que deveria ser antecipada? É que o Avepark está votado a um isolamento rodoviário. Sendo evidente para todos, isso depois começou a manifestar-se na perda de empresas – se tinha dificuldades em fixar algumas – que se foram perdendo. E isto levou à reação. A ação nunca é prévia: a ação política é sempre reativa. Nós temos vários exemplos: posso lhe falar da grande reunião com os agentes do ambiente da zona norte que foi feita na sequência de uma descarga poluente em Donim. E quando estamos com espírito e propósito da proteção ambiental e do exemplo ambiental, isto devia ser uma medida basilar. É logo a primeira. Isto surge em reação.

Recordo por exemplo quando surgiu o tema da videovigilância neste mandato em que o presidente de Câmara disse que ia promover um grande debate para a videovigilância no Centro Histórico. Esse grande debate nunca aconteceu, a videovigilância nunca avançou e veio na sequência de uma tragédia que houve aqui no Centro Histórico. No fundo, parece-me que não devem ser, repito, as circunstâncias a determinar as políticas mas as políticas a condicionar as circunstâncias.

Até vou dar este exemplo: penso que nesta dimensão o atual primeiro-ministro, António Costa, tem sido um exemplo, nesta dimensão, de conseguir governar com aquilo que vem de quem se lhe opõe. Quer dos que os suportam, que pontualmente concordam, pontualmente discordam.

AM: E agora olhando para a intervenção do vereador André Coelho Lima nestes quatro anos.

ACL: Não avaliarei apenas o meu mandato mas de todos os vereadores da Coligação Juntos por Guimarães. Cuidamos essencialmente de ser sérios com o mandato que nos foi confiado. Que foi o de ser oposição, ser oposição não é oposição destrutiva. É oposição essencialmente construtiva. Também por isso, sendo coerentes com algumas críticas que fomos apresentando, apresentámos propostas. Concretamente dez propostas e submetemos à Câmara Municipal para serem apreciadas. Em assuntos, uns politicamente mais densos, outros menos. Eu diria que em alguns assuntos consensuais. E a verdade é que todas as propostas que apresentámos foram chumbadas pelo Partido Socialista, pelos vereadores do Partido Socialista. É mais difícil conseguir fazer oposição construtivamente quando esbarramos numa certa intolerância democrática de quem exerce o poder.

AM: Mas, permita-me, decorre um pouco das regras do jogo democrático. Tinham maioria absoluta…

ACL: Naturalmente. Decorre tanto das regras do jogo democrático chumbar todas as propostas da oposição como aceitar algumas. É exatamente igual. Porque a maioria permite-nos aceitar ou rejeitar. Naturalmente que não se pede a quem exerce o poder que aprove medidas com que não concorde. Isto é natural. Ninguém imagina que se discorde de tudo o que foi proposto, não é? Ninguém imagina isto, algumas questões são consensuais. Mas depois entra naquela questão que a política tem de pior que foi o A ou foi o B. O exercício do poder – às vezes é uma expressão que tem uma carga muito forte – é sempre uma responsabilidade e penso que exige a quem o esteja a exercer uma humildade ainda maior. Isto pode parecer paradoxal mas é o contrário. Precisamente de conseguir comunicar com todos. Até vou dar este exemplo: penso que nesta dimensão o atual primeiro-ministro, António Costa, tem sido um exemplo, nesta dimensão, de conseguir governar com aquilo que vem de quem se lhe opõe. Quer dos que os suportam, que pontualmente concordam, pontualmente discordam. Por exemplo, o atual primeiro-ministro tem o seu programa de governo sujeitar os grandes investimentos públicos a uma maioria de dois terços na Assembleia da República. Isto é uma medida que demonstra que ele sabe interpretar o que é a dimensão institucional, do que é o governo num sistema democrático. Pressupõe diálogo, pressupõe concertação, pressupõe entendimentos porque daqui resulta a evolução de todos nós e, penso eu, também do próprio exercício do poder.

Nós temos que perceber que as pessoas querem conforto, as suas vidas, sobretudo nesta terra, que é uma terra de trabalho, as pessoas não têm tempo: saem às 18h30, a loja fecha às 19h00, têm meia hora para comprar uma coisa de que precisam. Não pode ser um martírio vir ao Centro Histórico, ou dito de outra forma, não podemos vir ao centro da nossa cidade só em lazer, só em passeio.

AM: Já vão sendo conhecidas as propostas da Coligação Juntos por Guimarães e da lista que o senhor encabeça vai apresentar. Na minha leitura, elas orientam-se em três grandes eixos: a cidade, as questões da mobilidade pedonal no centro de Guimarães, as ligações – a mobilidade com a periferia. Talvez as questões económicas, as questões do emprego. Penso que é à volta destas três grandes linhas que se vai centrar todo o discurso até ao dia final desta campanha eleitoral. A sua proposta aponta para preparar a cidade para a pedonalização. Como Dr. André Coelho Lima, qual é diferença quanto às propostas que têm vindo do lado do Partido Socialista e que tem sido a prática desta Câmara Municipal?

ACL: Eu penso que é relativamente consensual entre todas as forças políticas em Guimarães o desejo da retirada do automóvel do Centro Histórico, designadamente. Sempre que isto se discute nos patamares políticos há um relativo consenso. Como é que isto é possível? Há uma resposta óbvia. Proíbe-se a entrada dos carros, ponto final. Acho isto um erro. Apesar de, por exemplo, voltando à sua primeira pergunta, neste mandato por duas vezes ter sido anunciado a retirada definitiva do Centro Histórico pelo presidente de Câmara e por duas vezes recuou porque, enfim, não tinham sido bem previstas as circunstâncias.

AM: Foi sensível aos argumentos apresentados. Demonstra que está atento…

De outra forma, eu diria que não preparou aquilo que estava a dizer porque quem prepara o que vai fazer é evidente que tem que antecipar. Não quero acreditar que está a afirmar que há sensibilidade nos argumentos na dificuldade das pessoas no acesso ao Centro Histórico quando isso é uma evidência. Ou seja, se se retira do trânsito no Centro Histórico todas as dificuldades que daí advêm é uma evidência. E um presidente de Câmara tem que estar preparado para isso, é o trabalho mínimo que tem que fazer. Aliás, eu diria que qualquer cidadão o sabe. Mas ainda um líder da autarquia.

Quando falamos de um projeto de mobilidade falamos de usar a bicicleta como alternativa ao automóvel. E usar a bicicleta como alternativa ao automóvel é usar onde se usa o automóvel porque as vias para aos automóveis – tirando um ou outro constrangimento – são o mais curtas possível.

AM: E assim sendo, propõe.

Sendo eu favorável à pedonalização, por outro lado opus-me sempre à falta de alternativa de estacionamento e nós, para criarmos o centro da cidade em que o peão ganhe posição ao automóvel, que é aquilo que todos concordamos, temos que arranjar uma solução para o automóvel. Portanto, daí também a proposta. Penso que é claro para todos que o centro da cidade – eu diria os centros da cidade, sobretudo os cascos antigos, têm dificuldades que são inerentes ao próprio edificado, de acessibilidade, enfim, que não se podem ultrapassar. O que temos que fazer é criar soluções alternativas de proximidade. E deixe-me sublinhar isto, que é muito importante, de proximidade, que façam com que os centros históricos, e sobretudo os centros da cidade, onde o automóvel não tem lugar possam permitir que as pessoas possam fruir deles na mesma, não é? Não há nenhum centro comercial no mundo que não tenha estacionamento no próprio edifício, ou é em cima ou é ao lado, mas no próprio edifício.
É evidente que não se defende que o Centro Histórico seja um centro comercial, o que se defende é que, com as dificuldades que são inerentes ao acesso Centro Histórico, que são inultrapassáveis mas também aquilo que os centros históricos têm que os centros comerciais não têm. Temos que criar as condições as mais aproximadas possíveis de conforto. Por uma razão de revitalização comercial: nós não podemos discutir uma estratégia de lojas âncora se não dermos alternativas para que os clientes das lojas âncora possam estacionar. Porque uma loja que atrai muita gente, onde é que essa muita gente estaciona se não estaciona com proximidade? Nós temos que perceber que as pessoas querem conforto, as suas vidas, sobretudo nesta terra, que é uma terra de trabalho, as pessoas não têm tempo: saem às 18h30, a loja fecha às 19h00, têm meia hora para comprar uma coisa de que precisam. Não pode ser um martírio vir ao Centro Histórico, ou dito de outra forma, não podemos vir ao centro da nossa cidade só em lazer, só em passeio.

AM: Mas então qual é a vantagem da sua proposta e da Coligação Juntos por Guimarães tem relativamente aos parques já anunciados que brevemente vão entrar em construção e aos estudos anunciados. É aquilo que anunciava há pouco da proximidade?

ACL: Exatamente isso.

AM: Não são próximos? Acha que Camões não é suficientemente próximo?

ACL: Acho que não, não é suficientemente próximo. Nós temos que perceber que vivemos em Guimarães e que não vivemos em Nova Iorque. Vivemos numa cidade que tem a dimensão que tem e não tem a dimensão dos grandes centros urbanos.

AM: Não tem escala?

ACL: É uma questão de escala. Vamos a ver: quem estacionar na Atouguia consegue chegar ao Toural em sete minutos a pé. Não é distante, é próximo, no entanto está na ponta da cidade. Certo? Eu tenho que admitir o seguinte: há pessoas que querem estacionar na Atouguia e vir a pé, porque gostam, porque vêm passear, porque têm tempo. Há outras pessoas que têm cinco minutos para fazer uma determinada coisa e devem poder fazê-la. Eu não sei se estão certas umas ou se estão certas outras porque eu não pretendo ser um educador da população. Eu pretendo que as pessoas tal como elas não consigam ter condições de viver com conforto na sua cidade e no seu concelho. Exatamente isto.

AM: Uma das suas propostas de estacionamento no largo do Toural lembre-se que há uns anos essa hipótese já foi largamente discutida e chumbada, se assim posso dizer.

ACL: Não pode dizer.

AM: Então porquê?

ACL: Houve uma opção política de avançar com a proposta…

AM: Debate.

ACL: E uma opção política de recuar nessa intenção. Tão simples quanto isso: opção política. Não houve debate vinculativo. Houve debate público, houve quem se tivesse oposto, houve quem tivesse sido a favor e depois quem governou tomou uma decisão absolutamente legítima. Não quero sequer questionar. Penso que foi um erro, sinceramente. De facto, devolvo-lhe a pergunta que me faz: penso que esse tenha sido o momento, ou seja, o momento em que se fez a intervenção urbanística no Toural, era o momento indicado para se avançar com esta possibilidade. Foi uma pena, foi um erro e a verdade é que esse erro continua, não é? Esse erro permanece, mantém-se e nós não podemos estar mais dez anos, 15 ou 20 à espera de o momento de o resolver. Porque aquilo que eu pretendo e é muito simples: parecendo um pequeno detalhe e para mim faz toda a diferença de quando tenho dito que um estacionamento no Toural ou no Campo da Feira, são os dois que proponho, o estacionamento do Toural tem que ter as suas saídas para os vários destinos: para a Feira do Pão, para o Largo da Misericórdia, para a Rua de Santo António.
Venha de onde vier – e não é um investimento pensado no turismo porque o turista, esse sim, pode estacionar a grande distância e vir dez minutos e 15 minutos a pé, até é positivo que o faça. É a pensar em nós, em quem habita e quer viver esta cidade, que saia no destino. Eu quero ir à Feira do Pão e estaciono e saio naquele destino onde eu quero ir. A diminuição das distâncias é também psicológica porque a distância é a mesma. Eu quero que cada um dos destinos do nosso Centro Histórico seja muito mais próximo das pessoas que se deslocam de automóvel.
E há uma coisa que é uma inevitabilidade: a existência do automóvel. Mesmo que, de um momento para o outro, a frota automóvel seja toda substituída pelo automóvel eléctrico, é evidente que vão existir automóveis, é uma inevitabilidade, nós temos que arranjar uma forma de os organizar, de os retirar da vista, porque isso sim estraga a estética das nossas praças mas não retirando conforto às pessoas.

AM: A nova via do Avepark tem previsto um conjunto de vias clicáveis, onde é que está a grande novidade?

ACL: É que não tem qualquer comparação. Em primeiro lugar: as vias que propomos ligam aos quatro pontos cardeais do concelho. Não fazem ligação a um parque empresarial, ou científico e tecnológico. Ligam populações, não ligam empresas. Pretende sobretudo privilegiar as pessoas que cá vivem e não os que nem cá trabalham nem são de cá. Em segundo lugar, procuram utilizar, sobretudo as ligações a norte, nordeste e noroeste, as vias pré-existentes. A ligação que propomos para as Taipas e que termina nas Taipas – a cidade-Ponte-Taipas – e a de São Torcato são assentes nas vias já existentes.

AM: Mas a ciclovia que a Câmara propõe e que já está em construção não vai também ligar isso?

ACL: De todo. Uma razão muito simples: a ciclovia é uma via de cicloturismo. É uma via para a bicicleta mas não é uma via para que a bicicleta seja um meio alternativo ao automóvel. Quando falamos de um projeto de mobilidade falamos de usar a bicicleta como alternativa ao automóvel. E usar a bicicleta como alternativa ao automóvel é usar onde se usa o automóvel porque as vias para aos automóveis – tirando um ou outro constrangimento – são o mais curtas possível. A ligação entre Guimarães e as Taipas é praticamente uma linha reta. Não é possível fazer uma via que seja mais curta. Para que a ciclovia seja uma alternativa de transporte e seja uma resposta de mobilidade, e não para andar de bicicleta ao sábado e ao domingo, que é uma coisa completamente diferente, tem que estar onde andam os outros transportes: os automóveis e os públicos. Porque são as vias que estão criadas para ligar as povoações. A ciclovia é diferente da via do Avepark e a via do Avepark é um projeto concreto para ligar ao Avepark e para ligar o Avepark à cidade.

AM: Mas tem uma componente de ciclovia também.

ACL: Se vir o projeto os declives são superiores a 7%, eu ainda gostava de saber que bicicleta é que vai andar quando for para subir, só se for a motor porque aquilo não vai ser muito fácil porque, como sabe, a via como está projetada, depois desce para o rio em Barco. E não deixa de ser curioso que mesmo as populações que são servidas pela via não são a favor dela. Já viu? Ou seja numa Câmara que quer apresentar a candidatura a Capital Verde Europeia e que, independentemente dessa candidatura, quer dizer que tem consciência ambiental traça uma via que rasga terrenos de reserva agrícola, explorações agrícolas existentes financiadas, terrenos de reserva ecológica, zonas que são do domínio da natureza e que vão ser completamente rasgadas. É nosso dever melhorar a vida das pessoas mas intervir o menos possível no que existe.
É quase como criar novas empresas de preferência em edifícios onde tenha existido outras, se já está violado o espaço vamos aproveitar isto. Digo o mesmo quanto às vias. O mais possível criar vias de ligação não rasgando aquilo que é o espaço da natureza. As pessoas do lado de lá do rio, fundamentalmente das Taipas, na sua grande maioria, consideram que esta construção vai isolar as Taipas. Veja bem: 18 milhões de euros depois, que é o custo da via do Avepark, as pessoas das Taipas e de Ponte vão continuar a passar o mesmo martírio para vir à cidade que passam ou para vir para a auto-estrada. E isto, do ponto de vista da gestão do dinheiro público, é incompreensível. O projeto que apresento não é um projeto de mobilidade é, sobretudo, um projeto de coesão territorial.

AM: Voltando à via do Avepark: é por isso que a Coligação Juntos por Guimarães propõe uma saída da auto-estrada ali na zona de Brito?

ACL: Exatamente.

AM: O Dr. André Coelho Lima lembra-se nos debates públicos que houve sobre a via do Avepark, a posição tomada na altura pelo Professor José Mendes, atual secretário de Estado, que dizia que era impossível praticamente qualquer concessionária permitir uma abertura naquela zona em que a Coligação está agora a propor.

ACL: Aquilo que lhe posso dizer é que o Professor José Mendes também disse que se fizéssemos uma via com duas faixas de rodagem o trânsito era mais lento do que com uma faixa de rodagem. Portanto, não faço mais comentários do que este quanto a isto. O que é que saberá o Professor José Mendes ou o primeiro-ministro ou o cidadão mais simples sobre o que é possível e o que é impossível? Não há impossibilidades, há objetivos, há vontades. Não conheço a palavra impossível. Há dificuldades e nós cá estamos para as tentar ultrapassar. A verdade é que a auto-estrada atravessa a ponta do concelho de Guimarães, entre quatro vilas. Ponte e Taipas para a direita, Ronfe e Brito para a esquerda. Atravessa uma das zonas com maior densidade de construção industrial. Objetivamente nós já temos uma saída em Serzedelo, uma em Pinheiro e uma em Silvares. Não faz sentido não existir aquela saída. Tanto não faz sentido que ela foi discutida aquando da construção da auto-estrada. Há naturalmente dificuldades que não desconheço. Mas as dificuldades estão aí para serem resolvidas.

Para ser uma alternativa tem que estar à porta das pessoas. Sem demagogia, não pode estar à porta de toda a gente, tem que passar pelas principais comunidades, por todas as freguesias. A maior parte do concelho não é servido ao fim de semana, o que é uma coisa impensável para quem quer discutir mobilidade.

ACL: Transportes urbanos: é intenção do Dr. André Coelho Lima levar os transportes urbanos a todo o concelho. Sabendo nós das condicionantes que existem e até da intervenção da futura autoridade dos transportes, como é que vai conseguir levar os transportes urbanos a todo o concelho? Vai municipalizar os transportes urbanos.

ACL: É uma opção. O modelo não está fechado. Não é a ideia que eu tenho. É algo que se pode assemelhar à municipalização: ninguém pode exigir ao concessionário que faça linhas ou carreiras que dêem prejuízo. Mas o município pode exigir que elas sejam feitas na mesma. Conquanto assuma.

AM: Compensa o concessionário.

ACL: Exatamente. O ponto é esse. Se vir bem é como a própria gestão de equipamentos. Os equipamentos se forem entregues a quem os gere, o município pode sempre decidir. Por exemplo, a Tempo Livre gere as piscinas municipais mas para praticar preços abaixo do mercado, o município financia a atividade da Tempo Livre. O raciocínio é exatamente o mesmo. Nós temos que ter objetivos: para que o transporte urbano seja uma alternativa ele existe, se não existir nunca pode ser uma alternativa. Para ser uma alternativa tem que estar à porta das pessoas. Sem demagogia, não pode estar à porta de toda a gente, tem que passar pelas principais comunidades, por todas as freguesias. A maior parte do concelho não é servido ao fim de semana, o que é uma coisa impensável para quem quer discutir mobilidade.

É evidente que isto implica investimento municipal. O prejuízo que aqui exista do ponto de vista financeiro é lucro social. O município investe quatro milhões de euros em cultura, sem questionar se investe bem ou mal. É um investimento. Como pode ser investir dois milhões de euros em transportes. E aqui compensando o concessionário pelas carreiras que não faria por sua própria iniciativa por darem prejuízo financeiro.

AM: De alguma forma o município já vai investindo com os passes sociais para a terceira idade.

ACL: Isso são medidas concretas específicas. O município até diz com algum orgulho que a regra é a nos transportes urbanos do utilizador-pagador. Outra coisa é, em determinados sectores, haver um apoio para os passes sejam mais baratos ou mesmo gratuitos. O que estamos a falar é de permitir que o transporte público possa chegar a todo lado. A dificuldade de quantificação disto tem a ver com isto: eu não tenho dúvida nenhuma que se nós pusermos o autocarro a ir a uma freguesia onde hoje não vai e não vai porque tem pouca gente. Ele vai e vai dando um prejuízo de x mas não tenho dúvida alguma que ao fim de seis meses, ainda que possa dar prejuízo, ele será ainda menor. Existindo alternativa mais pessoas vão utilizá-lo.

AM: É um investimento.

ACL: E o dinheiro público é para investir. Eu não posso ter as pessoas de Moreira de Cónegos a dizer que a partir das 16h30 não têm transportes públicos para a cidade porque isto é de facto chocante. Moreira de Cónegos é uma vila do concelho de Guimarães e a partir das 16h30 não pode vir a Guimarães.

Para o município deixar de ter receita tem que ter um benefício social, que é a criação de emprego. O atual regulamento não atribui uma majoração significativa ao emprego.

AM: Fomentar a criação de emprego através de cinco novos parques industriais. S. Torcato, Ponte-Taipas, Ronfe-Brito, Pevidém, Moreira de Cónegos. Sabe como é a dispersão do próprio tecido empresarial no nosso concelho. Estou a lembrar-me de Brito, Ronfe com diferentes zonas de implantação. Como é que vai resolver o problema. Vai procurar concentrar as empresas, que estão atualmente dispersas, ou vai criar novos núcleos?

ACL: As duas. O objetivo principal é responder ao emprego. Hoje em dia a principal dificuldade que estamos a sentir é na ausência de terrenos para elas se instalarem. Estamos hoje em dia a viver um tempo diferente do que vivíamos há 15 anos, as empresas não estão em dificuldades e não estamos a perder empregos por isso. Estamos a perdê-los porque as empresas estão a crescer e procuram outros locais para crescer. E dizem mesmo: a transferência que é recente da têxtil Cães de Pedra, que é uma empresa tradicional de Guimarães, que detém as marcas Decenio e Lion of Porches, por declarações por responsáveis seus, “não encontrámos alternativas em Guimarães, fomos para Vila do Conde”. Portanto, visa responder a isso. Visa organizar aquilo que é área empresarial e o que é área habitacional. Visa evitar acontecer o que aconteceu com a Ecoibéria, por exemplo. Foi captada para Guimarães, o único investimento captado durante este mandato para Guimarães, e depois foi colocada paredes meias com uma área habitacional. Isto revela desorganização, desestruturação, revela não perceber, não preparar antecipadamente o território. O território tem que ser visto desta forma: nós temos que ter maiores bolsas para instalação de empresas mas temos que o fazer de modo organizado.

AM: No caso de vir a ser poder, vai alterar o regulamento do Projeto Económico de Interesse Municipal (PEIM)?

ACL: Vou porque já não votei a favor dele. Acho que o regulamento que existe que é uma novidade deste mandato e pelo qual eu batalhei no mandato anterior e que eu falei sozinho perante a incompreensão de todos, nomeadamente do então vice-presidente e atual presidente de Câmara. Para o município deixar de ter receita tem que ter um benefício social, que é a criação de emprego. O atual regulamento não atribui uma majoração significativa ao emprego. Atribui, é certo. Julgo ser um fator de 30% e tem que ser mais.

AM: E Avepark? Qual a posição de um executivo por si chefiado? A continuação do mesmo modelo de negócio?

ACL: Não, penso que é claro que o que tem sido feito no Avepark leva ao resultado que está à vista de todos. A existência do Avepark é uma grande oportunidade, aquilo tem que ser repensado, temos que sentar as pessoas que percebem na área de ciência e tecnologia, sentar as pessoas que percebem de fixação de empresas, temos que pensar para além desta dimensão rodoviária e aqui a resposta já está dada. Penso que o professor Rui L. Reis disse numa entrevista que era melhor uma ligação à auto-estrada na zona de Brito do que propriamente entrar em Silvares. E acrescento eu: muito mais barata.

AM: E a Universidade do Minho? Como será o relacionamento com a Universidade do Minho? Incrementar?

ACL: O melhor possível. O relacionamento tem que ser o melhor possível independentemente das relações pessoais. Este mandato fez uma aproximação na relação institucional com a Universidade do Minho. Isso é visível e tem que ser reconhecido.

Totalmente disponível para isso e até acrescentaria que é um desafio interessante. O que estamos a falar é da CDU que tradicionalmente tem mantido o seu vereador já há muitos mandatos. Eu diria que a comunhão de propostas políticas e de discussões ao longo deste mandato existiu em vários dossiês. Acho que exercer o poder é ter essa tolerância, essa abrangência.

AM: O que será uma vitória para si e para a Coligação no próximo dia 01 de outubro?

ACL: Vencer as eleições.

AM: Com maioria absoluta?

ACL: Vencer as eleições por um voto.

AM: Isso implica uma pergunta: entendimentos com outras forças políticas.

ACL: Totalmente disponível para isso e até acrescentaria que é um desafio interessante. O que estamos a falar é da CDU que tradicionalmente tem mantido o seu vereador já há muitos mandatos. Eu diria que a comunhão de propostas políticas e de discussões ao longo deste mandato existiu em vários dossiês. Acho que exercer o poder é ter essa tolerância, essa abrangência. Acho que é um desafio muito interessante governar Guimarães numa eventual coligação com a CDU. Penso que é absolutamente possível. É o que aconteceu no Porto no primeiro mandato do Rui Rio. E é o que aconteceu em Guimarães, as duas vezes que esteve no poder em Guimarães, pelo Dr. Óscar Pires e pelo Dr. Cândido Capela Dias, nas duas vezes que Guimarães foi governada pelo PSD.

AM: Vou-lhe lançar um desafio. Imagine que tem à sua frente um eleitor normal. Convença-o a votar na sua candidatura.

ACL: Nunca lhe pediria o voto porque eu acho que cada pessoa sabe exatamente aquilo que quer para o seu futuro. Aquilo que eu acho que as pessoas devem refletir profundamente as suas opções de futuro. Devem analisar as propostas, os projetos, as personalidades de quem se apresenta a candidato a presidente de Câmara e decidir. Eu não tenho o atrevimento de tentar convencer as pessoas de seja o que for. Quem está na nossa posição deve apresentar-se, abrir o peito, pôr as suas propostas em cima da mesa e deixar os cidadãos escolher e esperar que a escolha recaia sobre aquilo que apresentamos.