Afinal, a vida sempre muda

Há momentos em que, afinal, só nos ocorre ficar calado. Se pusermos de parte aqueles que, por opção, decidiram conduzir as suas vidas à margem das discussões públicas, esses momentos acontecem quando nos parece que o debate virou um impasse, momentos em que os acontecimentos locais ou globais parecem estacar em vias sem saídas. A discussão levada até ao fim é sempre um trilho difícil de percorrer. Os mais qualificados, os profissionais da política, levam a vantagem de se terem habituado a defender um mesmo ponto de vista. Nessa insistência de posição vão avançando, sem vacilar. Na periferia, estamos nós, aqueles que, esporadicamente, vão metendo o bedelho porque nos convenceram em algum lugar que havíamos de ter voto na matéria. A força e a insistência obsessiva dos mais qualificados, agarrados com unhas e dentes às suas posições (em sentido lato), são em si uma barreira assustadora que nos reduz a simples intrometidos.  E nós que tentávamos enriquecer a discussão lá vamos encolhendo perante o que nos parece um conflito iminente.

Apesar do conflito ser uma constante da vida, tendemos a fugir dele como o diabo da cruz. Os conflitos são imprevisíveis. Os conflitos podem magoar e matar.

Mesmo que contemos com um certo ambiente de paz social e estabilidade política, a possibilidade de entrar na discussão intimida e assusta definitivamente os demais que pensam encontrar na distância a paz necessária para prosseguirem as suas vidas, sem mudança.

Há momentos em que nos apetece mudar de vida, cansados do status quo. Esses estados febris transportam-nos para projeções, favorecidas, de nós mesmos, seguindo outro diapasão. Concebemos, fugazmente, outras rotinas, outros lugares que nos levam a outros níveis de educação próprios dos seres superiores. De tempos em tempos, vamos lendo e ouvindo relatos sobre uma estirpe de pessoas que heroicamente vai pondo fim ao seu cansaço e muda, de facto, de vida. Parece haver, no entanto, uma condição essencial para esse luxo: ser rico. Os ricos mudam de vida, os pobres adaptam-se à realidade vigente ou à mudança imposta.

Presos nos compromissos, mas inconformados, voltaremos à discussão, não havendo outro remédio. Até porque levamos na bagagem umas quantas tentativas, um património já de si valioso. Sempre nos será permitido sonhar mudar essa vida. Se não for a nossa em particular e em primeiro lugar, então que seja a de todos ou de uma parte considerável de nós todos.

Hoje vamos a votos. Há muitos anos que não assistimos, aqui, a tanto debate e discussões antes das eleições. Para a intensificação do debate local muito contribuiu o aparecimento de novos meios de comunicação social. O escrutínio da vida política é, hoje, entre nós, uma realidade que tendeu a desaparecer estes últimos anos. Por outro lado, já não restam dúvidas que as redes sociais são um meio poderoso de veículo e disseminação da informação e do debate, mesmo que, em muitas ocasiões numa linguagem incontida. Em poucos meses acabou-se com o silêncio instalado. Os incautos começaram por causar espanto. Surgiram questões de independência ou isenção dos meios de comunicação. A novidade da situação também esteve na tomada de posições diferentes por outros agentes que não os partidos políticos e, desta vez, de forma audível. Independentemente dos resultados das eleições autárquicas cujo o desfecho será conhecido mais logo, é provável que o futuro venha a ser mais debatido, o governo local mais escrutinado, com a comunicação social e os grupos de cidadãos mais atentos e interventivos. Afinal, a vida sempre muda.

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.