O Harvey Weinstein está no meio de nós

Não há como não falar do que se passa agora em Hollywood e que está a tomar conta das redes sociais. Actrizes, antigas funcionárias, na sequência de um artigo do New York Times queixam-se publicamente de assédio, abuso e violência sexual de um dos “todos poderosos” de Hollywood.

Não há como não ler os relatos e não ficar enojada. Não só pela empatia que se cria naturalmente com as vítimas, mas como a ideia que se instala que este “modus operandi” é prática comum em Hollywood. Não acredito que o Harvey seja o único em Hollywood com estas práticas. Foi o que perdeu o poder, após a demissão da The Weinstein Company, e consequente queda, os relatos e denúncias foram cada vez mais. E os outros?

Seguindo atentamente este caso, há muitas questões que se levantam dentro de mim.

A primeira, que é visceral, é que nós mulheres estamos em guerra. Se há coisa comum a países e culturas diferentes e que acontece por todo o mundo de forma sistemática, é o machismo e o sistema patriarcal. Está entranhado na nossa linguagem, no nosso comportamento, na nossa consciência, na nossa cultura. Está entranhado também na nossa aprendizagem e na falta de “role models” femininos. Figuras femininas relevantes nas várias áreas foram esquecidas nos livros de escola e do campo mediático, enquanto os seus equivalentes masculinos foram, muitas vezes nos mesmos campos, tornados em ícones da cultura popular. No campo do assédio e/ou abuso sexual poucas são as mulheres que, desde tenra idade, não tinham tido uma experiência de assédio ou em casos mais graves, de abuso sexual.

A utilização da hashtag metoo só veio mostrar uma realidade, que para nós mulheres, não é nova. Nas conversas que temos umas com as outras temos bem noção da dimensão do problema e da forma como o mesmo nos afecta.

A segunda questão com a qual me confronto, mais friamente, é a questão das vítimas masculinas, que também existem (relatos de homens com experiências de assédio e/ou abuso também apareceram sobre a hashtag metoo). Há outra dimensão que temos de envolver nesta equação que é o poder e as relações estruturais de poder. Não admira que a maioria das venha do sexo feminino, uma vez que o poder se concentra no sexo masculino, mas questiono-me se seria diferente se os papeis se invertessem.

A terceira questão é que o facto do sexo ser, muitas vezes, usado como arma. A sociedade diz que uma mulher é violada quando se “põe a jeito” porque é provocante e sedutora de mais, mas fica calada quando uma modelo que faz um anúncio publicitário para uma marca de sapatilhas sem ter feito depilação, sofre com ameaças de violação por ser porca e nojenta. Na cultura, nos cartoons, no humor nacional, nas piadas e nas nossas conversas diárias não faltam exemplos de como o sexo é, também, uma arma de humilhação do homem sobre a mulher.

E, por último, não é só em Hollywood que existem predadores sexuais. Em indústrias menos glamorosas, como o têxtil e o calçado, eles também existem. Eles estão no meio de nós. Desde familiares, amigos de pais, professores, chefes, padres, polícias, colegas de trabalho, vizinhos e etc, todos nós ouvimos histórias, passamos por situações que não queríamos, sabemos quem são as pessoas, mas calamo-nos, porque numa primeira instância, o ônus da responsabilidade cai sempre sobre a mulher ou sobre a vítima.

Num momento catártico como este parece estar a ser, em que milhares de mulheres relatam corajosamente as experiências porque passaram, existem sempre as frases ditas do quão fortes, poderosas e incríveis as mulheres são.

E correndo o risco de poder ser mal interpretada, não, não somos poderosas. Somos consideradas uma minoria, não porque em temos numérico somos menos, mas porque detemos menos poder. Menos poder monetário, menos poder na esfera pública, temos menos voz, aparecemos menos como exemplos e não tornamos em ícones populares as mulheres que foram em são relevantes em tantas esferas.

É bom que tenhamos todas noção disto, para percebermos o que poderemos fazer para mudar. Não tenho respostas, apenas inquietações e muita vontade de fazer alguma coisa para que as novas gerações cresçam num mundo onde as mulheres não sejam mais uma “minoria”.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.