Fogo

Todas as semanas tento escrever sobre os temas mais actuais. Vivemos uma época do agora, amanhã já ninguém se lembrará da revolta que sentiu ao ler a notícia de ontem.

Vamos portanto aos fogos florestais, o tema do dia até porque as lágrimas da população que perdeu quase tudo ou mesmo tudo passam a cada minuto nos nosso ecrãs. Todos se unem no apoio e na ajuda, todos se deslocam para saber o que é necessário, todos enchem as malas dos seus carros com bens e conforto. Mas depois a vida continua mesmo para aqueles que terão as suas rotinas num território pintado de preto.

Ora, a solidariedade que hoje demonstramos terá que ter a sua continuidade na concretização de medidas que foram propostas até à exaustão. A escolha foi sempre a de apertar o cinto ao povo português que gastava demais, a de pagar a dívida dos Bancos porque esses é que são prioridade, a de ignorar o interior – quem lá vive o abandono que se amanhe.

Os terrenos agrícolas deram lugar aos eucaliptos e apesar dos grandes incêndios de 2003, 2005, 2009 e 2013 a ministra da agricultura e das florestas Assunção Cristas deu a possibilidade de se plantarem mais eucaliptos.

Não precisamos de fazer o turismo do drama para sabermos que a nossa floresta autóctone desapareceu, que não existe ordenamento florestal e que plantar castanheiros ou carvalhos não é rentável a curto prazo. Sabemos que o investimento na limpeza e protecção da floresta portuguesa ficou dentro da gaveta porque essa história das alterações climáticas é apenas mais uma invenção da ciência. Vamos para a praia em Outubro, queremos melhor!?!

Hoje estou solidária com as populações que estiveram com as chamas aterrorizadoras à porta. Nunca esquecerei a floresta negra que vi, as árvores que morrem de pé, os terrenos com espécies únicas que desapareceram. As histórias de pessoas que, ao contrário daqueles que só viram as chamas através da televisão, compreendem que os bombeiros não conseguiam chegar a todo o lado e que afirmam ter visto um céu negro cheio de estrelinhas de fogo.

O fogo não conhece fronteiras, não se desvia das casas, das empresas, dos campos agrícolas nem dos animais.

O desinvestimento na floresta que alguns fingiram não ver ou que aceitaram como um mal necessário é hoje encarado como uma desgraça que não podia ter acontecido. Se as casas que outrora foram dos guardas florestais hoje são de turismo, é de desinvestimento que falamos.

Se se encolhem os ombros enquanto se destrói de ano para ano o corpo de Guardas Florestais, quando não se investe na limpeza das matas nacionais, e se aumenta a área de eucaliptização, quando se obedece mais às indústrias das celuloses do que se respeita o país e as populações, a culpa não pode morrer solteira.

Mas não basta apontar o dedo, ter um rosto para acusar e depois dormir descansado. Os governos que desinvestiram na nossa Floresta Portuguesa e no apoio aos nossos Bombeiros nas últimas décadas são o rosto do momento dramático que vivemos e isso uma grande parte de nós não quer ver.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.