Um espelho e uma parede branca

“- Eu estava num palácio e em frente de mim havia espaço, espaço, espaço. E o chão era de mármore liso e brilhante. E eu estava no fundo de uma galeria silenciosa e solitária. E contemplava o mudar das horas do dia. (…). Vi, vi, vi. Eu sou um espelho; passei toda a minha vida a ver. As imagens entraram todas dentro de mim. Vi, vi, vi. E agora estou nesta sala onde não há um lugar onde os meus olhos de vidro descansem. Oriana, tira-me daqui e põe-me em frente de uma parede branca, nua e lisa. (…)” (A Fada Oriana da Sophia de Mello Breyner)

A Fada Oriana é um dos meus livros infanto-juvenis preferidos. Por muitas razões, que não vale a pena enumerar aqui, mas porque é daqueles livros que ganham diferentes leituras consoante a idade com que se lê.

Desde há algum tempo a esta parte, que esta passagem do espelho me tem vido à memória. Talvez porque me sinto um bocadinho como o espelho, apetece-me passar os dias a olhar para uma parede branca, nua e lisa.

Eu tenho uma relação de amor/ódio com a tecnologia. Obviamente que reconheço todo o conforto e facilidades que a tecnologia nos trouxe. Por outro lado, pergunto-me se ficamos a ganhar nesta equação. É bom ter o google na ponta dos dedos e ter um GPS (a melhor coisa do mundo) sempre disponível, mas possibilidades de entretenimento são tantas que facilmente, e exactamente pela facilidade, damos por nós mais fechados no nosso mundo a olhar para o ecrã do telemóvel do que a partilharmos ou a partilharmo-nos com as pessoas que nos rodeiam.

Já não nos bastava termos uma televisão ou a rádio que pode emitir ruídos o dia todo, como ainda andamos voluntariamente com um dispositivo no bolso que faz com eu tenhamos a obrigação de estarmos permanentemente contactáveis. O acesso à internet é contínuo, nunca saímos de modo trabalho e estamos sempre, sempre e outra vez, voluntariamente, a ser bombardeados com coisas. Estamos a ver coisas, ler coisas, ouvir coisas.

Há esta urgência de estarmos sempre actualizados e estarmos a ver os feeds das nossas redes sociais para não nos escapar a última cena viral a internet e de repente não sabermos do que falam as pessoas. É porque agora não há desculpa para não sabermos de alguma coisa, porque temos uma super arma para o conhecimento na mão.

O que realmente me chateia é agora haver muito pouco lugar para o tédio. É, tenho saudades de estar entediada. Lembro-me das férias de verão – quando elas duravam quase dois meses – e lembro de tardes de tédio em que desejava tanto que a escola recomeçasse porque não tinha nada para fazer. Agora não há lugar para não termos nada de fazer. Toda esta possibilidade de conhecimento também nos deu a noção do nosso desconhecimento. Todos os dias espreito o feed das minhas redes sociais e vou pondo nas minhas listas de filmes a ver/livros a ler livros e filmes que espero muito ter tempo para ver, mas que sei que metade ficarão pelo caminho. A ideia de não termos tempo de vida para fazermos tudo aquilo que gostamos é uma ideia que me angustia.

Às páginas tantas, só me apetece ficar a olhar para uma parece branca, nua e lisa e ficar muito entediada. E com isso perder mais algumas boas horas em que poderia ver um filme ou acabar de ler o livro que se passeia na minha mochila há mais de um mês.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.