GENTE VIGENTE | Augusto Corrente

Por César Elias

Augusto Corrente. Para quem sabe, o Zeca. Para quem conhece, José Lemos.

Augusto Corrente é e sempre será um dos mais fascinantes músicos que a cidade de Guimarães viu nascer. E haverá equívoco se à memória apenas surgir a imagem de um bom baixista; de um primordial baixista, perdão. É que a risada do rapaz não deixa esquecer aquela silhueta peluda e irrequieta, a disponibilidade cronometrada de uma alma mergulhada em música.

Cérebro da insubstituível sonoridade de “Movimento Perpétuo”, figura imprescindível da lenda “Pornography” (N.A.D.A), veterano instrumentista de projetos como “Tumulum”, “Gringo”, “Rock Friends Project”, “The Funktion” “The Symphonix” (Neo-Nirico), “A Colmeia”, “Square”, “Locus Horrendus”, “Plutão É Planeta”, “Fragmentos”, “Basstards”, há muito que vicia todos aqueles que com ele trabalham através de estímulos intravenosos de profissionalismo, com a sua curiosa dedicação e com grandes noites de rica conversa. E, certamente, a história da arte vimaranense ainda muito terá a dizer sobre este nosso primeiro convidado.

Augusto Corrente, o formador, um dos precursores de uma emblemática Jam da cidade berço, o homem dos sete instrumentos, chefe de naipe para baixo em “Operação Big Bang 2012”, curandeiro dos baixos falecidos e esquecidos em caves poeirentas e paredes de bares com aroma a pavio, músico assistente em peças de teatro/dança e instalações como “Fio Condutor”, “Fio Terra”, “Pé Ante Pés”, “Human Box”, “Capital Europeia da Cultura 2012”, reprodutor orgulhoso do baixo-balão, e, claro está, membro carismático do grupo “Minhotos Marotos”, hoje, em entrevista exclusiva para a nossa rubrica “GENTE VIGENTE”.

 

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GENTE VIGENTE: Pondo de parte todo o artista que há em ti, se possível, diz-nos quem é a pessoa que se esconde nesse papel. O que está no passado do Augusto Corrente que não se conhece. O que está dentro de ti?

Augusto Corrente: Nos tempos que correm, a vida profissional está intrinsecamente relacionada com a vida pessoal, o que torna cada vez mais difícil fazer essa separação. Não vou negar que por trás da personagem “Augusto Corrente” existe um rapaz pacato que no fundo só quer estar sossegado no seu canto. A questão é que ao longo da minha vida profissional, enquanto músico, a vida pessoal e a musical foram-se misturando. Hoje em dia conto pelos dedos das mãos os dias do ano em que fico afastado dos vários ambientes musicais em que me insiro.

No fundo foi esta a vida que escolhi e com a qual sempre sonhei, e sendo eu um “workaholic”, a personagem “Augusto Corrente” está cada vez mais misturada com o Zeca ou com o José Lemos.

GENTE VIGENTE: Imagina todo o trabalho que já construíste, tudo aquilo que agora fazes. Há uma imagem de um futuro para tudo isso?

Augusto Corrente: Sim. Claro que tenho sonhos e idealizo o futuro, que passam tanto pelo meu trabalho como artista, músico ou intérprete, como pelo trabalho de comunidade e de ajudar os outros a criarem o seu caminho no mundo da música. E é o acompanhar da evolução das pessoas a quem eu passo os meus conhecimentos que me dá orgulho e satisfação pessoal. No futuro imagino-me neste mesmo caminho mas com um leque cada vez maior de pessoas que sintam que fui importante para elas em algum momento das suas vidas.

GENTE VIGENTE: Haverá alguma mensagem evidente naquilo que fazes? Acreditas que o teu trabalho pode ser olhado como um exemplo para miúdos e graúdos?

Augusto Corrente: Pode ser interpretado assim, mas não o faço deliberadamente. Em tudo que faço, penso sempre no público ou no formando. Existem muitos músicos ou professores de música que pensam neles antes de pensar na música ou no seu público-alvo. Não estou a dizer que existe um caminho certo ou errado, até porque acredito que na música existem vários caminhos, sendo a questão do melhor/certo ou pior/errado, muito relativa.

Resumindo, naturalmente que a forma como encaro a arte a tenho e acredito como um exemplo para quem pensa da mesma forma do que eu, mas não ponho de parte outros métodos e formas de estar na arte.

GENTE VIGENTE: Guimarães. A tua terra. O teu lugar. Qual a tua relação com a cidade? O que tens para lhe dizer enquanto artista? Qual a mensagem que lhe deixarias enquanto seu vivente?

Augusto Corrente: Gosto bastante deste nosso cantinho e muito do meu trabalho é em prol da cidade. Com os Minhotos Marotos (um dos projetos onde me insiro) levamos o nome de Guimarães a todo Portugal e às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo fora. E com o trabalho de formador, o meu objetivo é que surjam mais projetos musicais das mais variadas áreas, mas que tenham a capacidade de sair do meio local, o que é raro na nossa cidade. Hoje, numa era de globalização em massa, é cada vez mais fácil as bandas locais obterem sucesso mundial, por isso a mensagem é de esperança. Com vontade e perseverança, tudo é possível!           

Arte. Essa forma ardente que é vertigem despropositada, desastrada tentativa de vida, afortunada reencarnação, está muito mais ali, surpreendente, na esquina, na mais humilde habitação.

César Elias

Foto: Direitos Reservados