Epifanias

Há alguns anos, uma noite como qualquer outra noite, fui com duas amigas tomar café ao uma associação vimaranense. Estranhamos o ambiente. Enquanto nos dirigíamos para o bar, dois miúdos disseram “mais três que entram na sala e vão embora”. Ao entrar no bar propriamente dito, percebemos que nessa noite ia haver um concerto de um trio de etnia cigana e, portanto, o bar estava cheio de pessoas de etnia cigana.

Curiosas, sentamo-nos e ficamos para ver o concerto. O concerto dado por três adolescentes, sendo que o vocalista e natural líder, entre canções aproveitava e ia reclamando com os músicos que o acompanhavam por causa de coisas que o meu ouvido duro não detectou. Foi uma noite divertidíssima, em que se dançou, dançamos, pela primeira vez ao som de música cigana tocada por míudos da mesma etnia.

Nessa noite, tive uma epifania. Vi a música como forma de aproximação, de união, mas também para os músicos, como forma de afirmação de identidade e orgulho na suas próprias raízes e cultura e tradições.

Este sábado, tive outra epifania ao ver o “Auto das Máscaras”, espectáculo teatral dirigido por João Pedro Vaz, com a colaboração do grupo “Outra Voz” e os Velhos Nicolinos. O pano de fundo não poderia ser mais surpreendente, um museu de arte contemporânea. O palco sem ser palco foi todo o museu, num percurso guiado pelas várias dezenas de intérpretes. Olhava à minha volta, encantadíssima ao ver como o espaço-museu, as pessoas-intérpretes e as pessoas-espectadoras dialogavam entre si. Estava encantadíssima pela viagem no tempo e no espaço que aquele grupo me estava a proporcionar, tendo obviamente que salientar que a maior riqueza daquele grupo tenha sido a sua diversidade, entre profissionais e amadores, homens, mulheres, idades – uma paisagem humana diversa e surpreendente. E quanto me movia, entre divertida, receosa e emocionada pelo o que estava a ver e a sentir, não podia deixar de olhar para aquelas pessoas – intérpretes e estar muito curiosa com o que elas mesmas estavam a sentir, a experienciar. Especulei como teriam sido os ensaios, a construção do espectáculo e como seria a descarga de adrenalina depois do espectáculo acabar. Fiquei levemente invejosa, confesso.

Os projectos de criação artística comunitária que tive a oportunidade de assistir de perto tocaram-me profundamente. A partilha a que as pessoas, sem formação artística, estão dispostas é incrível. E o retorno e impacto que estes projectos têm na qualidade de vida dos seus participantes é imensurável.

Numa sociedade como a nossa, que endeusa os jovens e que apela ao “ser jovem e ao mantermo-nos jovens” – o que quer que isso queira dizer – os cidadãos séniors, os idosos, são constantemente esquecidos. Felizmente que a oferta artística para criança e adolescentes é cada vez maior, mas é uma pena que o mesmo esforço não se aplique com os cidadãos mais velhos. O que lhes poderá faltar em energia, compensa-se certamente com experiência. Não aproveitarmos aquilo que as gerações mais velhas têm para dizer e os seus contributos é um erro que só uma sociedade superficial pode cometer. O registo, a exploração e o arquivo das memórias, pensamentos, ideias dos cidadãos comuns podem-nos ajudar a construir uma História mais verdadeira, mais próxima do cidadão-comum, com pontos de vista mais diversos e discursos mais igualitários. Devaneios e pensamentos que fogem ao cerne da questão e que serão certamente objecto de uma outra reflexão, mas que já não cabem aqui.

Voltando a Sábado e ao “Auto das Máscaras” quero só terminar parabenizando o projecto “Outra Voz”, talvez um dos frutos (senão o) mais bonitos e pertinentes do ano de 2012.  A arte e a cultura, que tantas vezes excluem, servem também para incluir e aproximar. E é sempre mais bonito quando assim é.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.