As últimas eleições autárquicas no distrito de Braga

As eleições autárquicas sempre tiveram, e continuarão a ter, uma importância vital para as populações face ao exercício do poder democrático de proximidade. No entanto, eleição após eleição, o estatuto de cidadania dos que se propõem levar à prática este dever cívico nem sempre corresponde à responsabilidade democrática que se lhes exige.

O facto de os candidatos virem a ser sufragados por eleição direta das populações não é razão bastante para os reconhecer como eleitos credíveis para a função. O problema que me permite sustentar este argumentário assenta, em primeira mão, no processo de escolha. Na maior parte dos casos são escolhidos no seio de um partido político por umas dezenas de votos quase sempre provenientes de um sindicato de voto que de democrático muito pouco ou nada tem.

A democracia, tal como concebida por vários pensadores da gestão da causa pública, já desde a Grécia antiga, é algo de que muitos daqueles, na sua essência, nem sequer ouviram falar. Mesmo assim, julgam-se portadores de aptidões e de valores éticos que não possuem e avançam suportados por uma clientela que servilmente os acompanha. Batem-se com o apoio dos grupelhos que cacicam, falsos mandatários da exigência popular do concelho ou da freguesia que, fazem crer, os espera de braços abertos. Pura falácia a destes falsos democratas que lançam às urtigas os princípios que juraram quando se inscreveram no partido. Entretanto, voltaram-lhe as costas em nome dos seus perversos apetites de poder que, vê-se agora, foi a causa da militância que falsamente diziam abraçar. Algumas destas pretensas vedetas de opereta são tão limitadas que, na hora da verdade, esbarram com a dura realidade da sua ignorância que o eleitorado democraticamente não sufragou, fenecendo sem honra nem glória as suas mesquinhas ambições pessoais. E, órfãos, pretendem regressar ao seio do Partido que traíram.

No passado recente, o Partido Socialista teve um estatuto que o referenciava, merecendo por isso, ao longo de décadas um indiscutível apoio popular. O PS foi maioritário no distrito de Braga em múltiplos actos eleitorais e disto todos nos orgulhámos. Agora está reduzido, pelo menos no que às autarquias diz respeito, a um partido decadente. O PS ufanava-se legitimamente dos seus resultados no distrito de Braga. Nas últimas eleições foram reduzidos à expressão distrital mais pungente de sempre, em razão de guerras fratricidas alimentadas por ambições de poder pessoal em detrimento de valores e princípios democráticos. Entretanto, outros distritos do país emergem de dificuldades que foram sendo vencidas.

Como foi possível permitir que em7 dos 14 concelhos do distrito de Braga concorressem duas listas antagónicas provenientes da militância do PS? Quem alimentou tão abjecta ignomínia? Que desígnios estão por detrás desta miserável conduta?

Hoje, já depois da perfídia consumada, as reuniões distritais mais parecem um «albergue espanhol» onde tudo se acoita e não uma reunião de democratas que com vitórias ou derrotas discutem a razão dos resultados do acto eleitoral do passado dia 1 de outubro. Isto não aconteceu nem pode acontecer porque se juntaram, sabe-se lá porquê, os que defenderam o Partido, como era sua obrigação, e voltaram sem pingo de vergonha os que se lhe opuseram.

Os que estão na origem de tão maquiavélicas congeminações que conduziram a este resultado, trataram de acautelar as suas ambições pessoais, em detrimento dos interesses partidários que em primeira instância lhes cabia defender. E, sem ética, continuam disponíveis para viverem de um caciquismo larvar que uns quantos bem-intencionados, mas mal preparados vão alimentando até ao esvaziamento final do próprio Partido.

Perante este péssimo serviço prestado à causa pública e à boa imagem do Partido espera-se da cúpula partidária nacional, nos termos dos estatutos que o regem, o rigor que se impõe, separando o trigo do joio. A não ser assim, a dimensão de um Partido, que é bastião da democracia em Portugal, vai arrastar-se penosamente, por estas paragens, num declínio que já foi longe demais e que urge travar com mão dura, proporcional aos desmandos que nos conduziram até aqui.

Poderá argumentar-se que noutros partidos acontecerão situações similares. No entanto, isso não nos conforta, antes sublinha que casos desta natureza prestam um péssimo serviço à democracia. E é da Democracia que se trata, Bem que mais importa defender.

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).