Eu peço, tu pedes… pedimos todos

Desde sempre que, nas trocas, houve quem tentasse e conseguisse, receber mais por menos, levando a que muitos tivessem pouco, para que poucos tivessem muito.

Entre os que tem pouco, alguns lutam por alcançar uma paridade nas trocas, um reconhecimento do trabalho feito, enquanto muitos se deixam envolver por frases, feitas à medida, castradoras da vontade, criando ilusões de facilidades

“Quem se humilha será exaltado”, “Pedi e sereis atendidos”, são exemplos de convite à submissão, com que se criou a esmola, em detrimento da justa troca.

Com o passar dos tempos, a pedinchice evoluiu para níveis extraordinários. Hoje pede-se, para tudo!

Existem variadíssimos modos de exercer a caridade, hoje chamada de solidariedade, quantas vezes encobrindo meios ou fins obscuros.

Também existe o aproveitamento, mais ou menos descarado, da “bondade humana”.

São os escuteiros que querem fazer um acampamento, a centenas ou milhares de quilómetros, ou simplesmente uma ceia de natal.

Os estudantes que necessitam de fazer uma “viagem de estudo” ou de fim de ano, normalmente ao estrangeiro.

Perante dificuldades ou ganância, inventam-se estratagemas incríveis:

Para uma operação, uma cadeira de rodas, para dar de comer aos filhos, porque ardeu a casa, etc.

Certo dia apareceu-nos à porta uma senhora que, “Vinha pedir uma esmolinha, porque a minha filha prometeu ir a Roma ver o papa”.

As dificuldades causadas pelas deficiências, físicas e mentais, devem ser supridas pela segurança social, evitando que haja uma humilhante necessidade de recorrer ao peditório.

As organizações colectivas, particulares oficiosas, não deveriam recorrer, aos vários tipos de estratagemas para angariar fundos para auxiliar estratos da sociedade.

Nenhum cidadão deveria ser deixado à sorte, de haver pessoas ou organizações disponíveis, para lhes resolver os problemas que, por princípio, pertencem ao colectivo ou seja o estado.

Talvez seja tempo de a sociedade olhar para o estado, como coisa nossa e não como uma propriedade de alguns, acabando com a caridadezinha que humilha.

Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.