O conturbado momento da política nacional

Qualquer cidadão minimamente interessado em compreender o clima político que nos rodeia é testemunha de uma recente turbulência, cujas origens nos impõem uma reflexão profunda que implica distanciarmo-nos do politicamente correto.

O governo atual assenta numa original e frágil maioria que se predispôs, num acordo nunca visto entre nós, a viabilizar o mesmo. Os parceiros não o fizeram de ânimo leve e nunca esqueceram, como se compreende, os seus seguidores partidários, tentando daí tirar vantagens para os desígnios políticos que os enformam. Alguns julgaram, quiçá desde a primeira hora, que as ideologias, no atual contexto, seriam esbatidas, ainda que não secundarizassem os compromissos com que eleitoralmente se haviam comprometido. Porém, agora, consoante a oportunidade, uns e outros agem de uma forma, às vezes pouco subtil na sua essência, que parecem querer lançar às urtigas «o menino com a água do banho».

Se dúvidas houvesse sobre os equilíbrios que urge manter neste modelo de governação, para cada um de per se defender os seus princípios, bastava relembrar o exemplo grego que tanto entusiasmou quase todos. Este só resultou em favor do povo grego quando o seu líder pôs de lado as euforias, ainda que generosas, de alguns vanguardistas. Então, seguiram um caminho que genuinamente não é o seu, mas o único que permite servir o seu povo, quando não se lidera um estado soberano. O bom senso impôs-se à ideologia.

Para compreendermos este modo de estar dos partidos da extrema esquerda temos de reconhecer, sem grande esforço, que o maior partido desta ocasional maioria, e que assume as rédeas da governação, por razões de ordem vária, tem cometido erros, alguns difíceis de explicar. Uns quantos surgem da fragilidade política de certos ministros; outros são impostos por fenómenos exógenos, que não domina, como é o caso das alterações climáticas, mas que a seu tempo deveria poder minimizar os seus efeitos. Embora muito ativo agora, em tempo útil não conseguiu corresponder como se lhe exigia, em matérias como a saúde, a educação, a prevenção.

O Partido Socialista ganhou as eleições autárquicas em que se empenhou, para aí encontrar um suporte partidário que não tinha e que lhe permitisse terminar o mandato com a sustentabilidade política, ainda que indireta, de que precisava. Ora, tal não aconteceu.

As derrotas infligidas ao PSD e ao PCP deram origem a um ranger de dentes que explica como lhes foi penosa a derrota. Por outro lado, os erros que a governação vem acumulando, não prevendo nem acautelando, como se impunha, as tragédias que nos bateram à porta, fragilizaram o seu prestígio, sempre imprescindível a quem governa rodeado de mil dificuldades.

Para mim, que há meses, como curioso, dediquei um pequeno texto ao tema, não ter prevenido as consequências das alterações climáticas que poderiam atingir-nos é falha considerável.

Ao cidadão comum desculpa-se quando só compreende o fenómeno na hora da tragédia. Aos governantes não. Um governo não pode presumir que este fenómeno à escala global não possa ter consequências no nosso país, cuja defesa está à sua guarda.

Além deste caso específico e tão penoso, uma sucessão recente de episódios vários, mesmo de natureza diversa, revelam uma aparente fragilidade e inércia que não se compreende. Ou compreende se atentarmos ao comportamento político de vários intervenientes e “opinion makers” nos múltiplos acontecimentos recentes, particularmente desde a, para alguns, polémica intervenção do Presidente da República de 17 de outubro. Tema a abordar proximamente.

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).