«Ilda Pereira triunfa em competições na Ásia»

O título surgiu preponderante nas páginas da especialidade sem equivalente de reacções do público – apenas umas modestas partilhas que conto com os dedos das duas mãos (ou talvez uma me baste mesmo). Lá fora sabem mais e melhor quem sou do que na própria terra onde, não só eu como toda a família, tenho raízes, S. Torcato. E pergunto-me:

– Porquê?

Terá sido o momento? Será o tempo? Haverá fundamento? E eu não percebo esse tímido e escondido apreço! Não aceito que não haja júbilo, sedução, uma espécie de projeção elevada em alguém que vai para o outro lado do mundo, sem saber quem e o que a esperará lá, arriscando a vida em cada circuito, disputando um lugar mais alto que permita suportar as despesas duma modalidade a anos-luz dos avolumados patrocínios do futebol … E eu não percebo!

Não abranjo e, quando já quase não me alcançava a mim mesma no que me fazia, com resiliência desusada, persistir no ciclismo após quase morrer na Eslovénia. A Eslovénia é uma competição UCI C1 já no calendário de 2018. Tenho de lá voltar para realizar a prova que ficou por cumprir e rever os amigos, a família que me alojou… Mas foi também lá que quase faleci. Quase morri e morria sem ver o Bruno. Tu não estavas lá e, no plano duro, a maior dor espelhada no vidro da ambulância era essa: tu não estavas lá!
Todavia, há a Ásia e, quando me desencontro, há a Ásia.

Agosto surge com poucas provas realizadas por falta de patrocínios e de apoio por parte de entidades que o cidadão comum pensaria que estariam a ajudar (como uma Junta, a Câmara, uma Federação, …), um ex-Nobel da Paz, de lá, de Timor, vem apaziguar esta ânsia de competir e é na mesma altura que o Município me reconhece, finalmente, como “atleta de alta performance desportiva individual”.

Um mês de foco ergueu-se. Pela primeira vez desde que faço ciclismo, desde que tive a minha primeira licença UCI, nasce um mês de trabalho 100% dedicado à preparação física! Timor transforma-se no grande objectivo da época. A 10 de Setembro o Bruno despede-se de mim no Aeroporto Sá Carneiro e sigo para competir em provas da UCI (União Ciclista Internacional), de Categoria 1, integradas na Asia Mountain Bike Series. Vou para medir forças em climas bem hostis com campeãs e entre elas me coloco no pódio, com medalhas de ouro, prata e bronze. Objectivo cumprido!

Sem bilhete de regresso comprado, Deli foi o destino que se seguiu. Shimla, Arunachal, Tawang e, mais de 2000 km nas pernas depois, mais de impenetráveis experiências das humanas culturas que, muitas vezes, foram sobrevivência e “guerra de sexos”, nómada, sem-abrigo, as provas terminaram e revim.

Sabem aquela saudade da casa? Aquele gostinho de estar à nossa mesa? Do cheiro da almofada que é nossa? Eu não o sabia. Em 36 anos de vida, talvez 32 desde que tenha plena memória de mim, nunca tinha sentido este tipo de saudade “domesticada”. Agora eu sei o que vocês sentem e o medo de não voltar aos lábios dum último adeus.

Estarei bem mas eu não percebo e não os percebo. Não são ossos do ofício porque não há conterrâneo que se arrisque numa saída de “ginga” ao fim do dia a perder a vida para chegar 10” à frente do principal adversário! Não é risco da profissão porque não é uma profissão, não há salário, e não conheço cicloturista que se arrisque numa “voltinha de domingo” a partir um ossinho que seja, a ganhar mais um hematoma, para conquistar um lugar de apuramento para um Campeonato do Mundo de XCM, uns pontinhos para subir no ranking Mundial, aquela posição elegível para uns Jogos olímpicos… É preponderante sem equivalente.

Ilda Pereira, 36 anos, licenciada em Ensino de Português e Inglês, na Universidade do Minho, e em Artes, na Escola Superior Artística de Guimarães. Foi oficial da Força Aérea e é corredora internacional de ciclismo desde 2010.