Desculpa, mas a culpa é tua!!!

Hoje, dia 25 de Novembro, é o Dia Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Violência Contra as Mulheres. Neste dia os governos e as organizações internacionais e ONG são convidadas a promoverem iniciativas para chamarem a atenção de todos para este problema.

Infelizmente, em Portugal, não é necessário esperarmos por um dia específico para sabermos que a violência contra as mulheres permanece no nosso dia-a-dia. Lemos quase diariamente os abusos que as mulheres continuam a sofrer nas mãos daqueles que um dia prometeram amá-las e protegê-las.

Na semana que termina morreu a 18ª mulher no ano de 2017. Esta mulher foi esfaqueada pelo marido. Não lhes eram conhecidas desavenças e toda a comunidade estava em choque com este comportamento do homem.

Mas este é o cenário mais comum. A vergonha de quem sofre de violência psicológica, física ou sexual é maior do que a dor no corpo ou na alma. Vergonha que as leva a esconder dos familiares e amigos o que acontece entre as quatro paredes ou nos encontros que deveriam ser de intimidade e de felicidade.

Tudo pode começar com a saia curta, com as unhas pintadas. A beleza que outrora atraiu o agressor transforma-se no motivo para a agressão. O telemóvel passa a ser o objecto de controlo, para saber onde está, com quem está e com quem fala ou falou. A vigilância torna-se insuportável e castradora, mas a justificação de um amor tão grande que não consegue passar um minuto sem saber onde está é mais do que suficiente para quem já está fragilizado no seu ego.

“Entre marido e mulher não se mete a colher!”

Continuamos a alimentar a ideia de que é da responsabilidade de cada um escolher a relação onde quer estar. Não nos metemos na relação daquela amiga que baixa os olhos quando está com o companheiro. Não nos metemos quando nos jantares de família o namorado da prima lhe grita porque ela o está a contrariar ou a dar a sua opinião. Não nos metemos quando vemos as colegas de trabalho a perderem o brilho desde que começaram a namorar.

E esta indiferença que apenas segredamos aos ouvidos uns dos outros, sem coragem para a denúncia, acaba por ser exemplo para os outros e em especial para os jovens. A violência no namoro está a aumentar. São frequentes as denúncias de abusos nos casais mais jovens. As práticas ancestrais de violência, somam-se agora às potenciadas pelas novas tecnologias. As ameaças com a revelação nas redes sociais de fotografias íntimas. O isolamento proibindo a vítima de conviver som os seus amigos. A humilhação e o insulto em público ou em privado para provocar insegurança e medo.

Depois a fúria passa, a desilusão passa, a esperança de que um dia este comportamento vai mudar cresce. Voltam as promessas de amor e a culpabilização: “Desculpa, não se volta a repetir, mas a culpa é tua que não fazes o que te mando!”

Não. Não tem desculpa!

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.