(Dedicado à Memória de Francisco da Cunha Oliveira Ribeiro, o “Xico do Jesualdo”)
Vila Real, primeiro ano de Faculdade. Quinta-feira, manhã de Vinte e Nove de Novembro:
Por todo o mundo, onde quer que haja um Vimaranense, é certo e sabido que é dia do Pinheiro, ou o começo das Nicolinas.
O tempo, esse inquilino de duas caras, parece não querer cumprir o seu papel. Estou numa sala de aula. Ou talvez não. Reformulando: o meu corpo está numa sala de aula. De Latim, ao que parece.
Meio dia e trinta:
Abandono o complexo pedagógico e dirijo-me para casa. Casa não. É manifestamente excessivo chamar “casa” ao apartamento que os meus pais alugaram para que eu possa ter onde ficar. Casa é em Guimarães. Só. É este o meu dicionário.
Meia hora de caminho. Apercebo-me de que dificilmente estarei na central de camionagem a tempo. Chego ao apartamento, abro a porta da entrada, entro no quarto, agarro no saco já previamente preparado e saio num piscar de olhos.
Olho para o relógio.
Treze e cinco:
Amaldiçoo-me por não ter escolhido levar o saco comigo logo de manhã. Teria poupado dois caminhos.
Faltam cinco minutos para a camioneta partir. A menos que seja bafejado por uma boleia milagrosa, ou qualquer outra contingência do Destino, não conseguirei chegar a tempo.
Tempo…ainda há pouco te arrastavas. Agora, voas como um louco. Duas caras, eu bem digo, duas caras.
Estou na ponte sobre o Corgo e nem São Nicolau me vale.
Treze e dez:
Por muito que eu não queira, a camioneta deve estar para partir. Irracionalmente, ou talvez apenas num acto de pura fé, nada me consegue abalar.
Sigo pelo caminho, apressada e naturalmente, com a viva esperança de que ainda conseguirei apanhá-la.
O telemóvel toca: é a minha Mãe. Pergunta-me, tal como fizera na véspera, se faltarei a alguma aula. Respondo qualquer coisa e desligo sob o pretexto de estar com pressa.
Coitada. Uma Mãe, sendo Mãe.
Chego à Central. Procuro as camionetas verdes e brancas da Rodonorte. Apenas uma, “fora de serviço”. A esperança não morre, mesmo assim.
Dirijo-me ao balcão de atendimento e pergunto pela que vai para Guimarães.
-Já saiu, meu filho., responde-me a simpática senhora.
Estou em estado de negação.
Não posso falhar o Pinheiro. E agora?
A senhora repara na minha figura a falar sozinho. Atira:
– Jovem, há uma outra às quinze e quinze, mas não é directa. Tem de mudar em Amarante.
Senti-me a pairar. Por vezes, não penso no mais lógico. Nunca ninguém me havia dito que só existia aquele horário para Guimarães, eu é que assumi que sim, sabe-se lá por quê. Respiro fundo e sento-me num dos bancos de espera. Levanto-me e dirijo-me ao balcão de modo a comprar um bilhete de viagem. A simpática senhora explica-me uma vez mais que terei de mudar de camioneta em Amarante e entrega-me um bilhete.
No bilhete, reparo na palavra “ida”.
-Não, não é ida. É Volta., penso.
Sento-me de novo e aguardo. A ânsia é tanta que a fome não mostra sinais de existir. Observo as pessoas que entram, as que por ali passam e as que se sentam. É por vezes grande a vontade de perguntar se alguém mais vai para Guimarães.
Catorze horas:
Agarro-me a um jornal. Quando dou por mim, já o jornal está lido e relido. Começo como que automaticamente a tentar lembrar-me daquele mesmo dia, mas no ano anterior. Entretanto, uma voz anuncia que a camioneta com destino a Amarante, com partida às quinze e quinze, já se encontra na gare, e que quem o desejar poderá já sentar-se no interior da mesma.
Levanto-me, despeço-me da senhora do atendimento e sigo para a gare, sem abandonar o pensamento do ano anterior. Não me incomodo a guardar o saco na mala, ficará junto a mim, no banco.
Quinze e quinze:
Arrancamos. O autocarro não é muito confortável. Não importa. Logo que cumpra, estará tudo bem. A partir do ano passado, vou recuando. Chego ao início de tudo. Ao meu primeiro ano no Liceu. O entusiasmo continuará o mesmo?
O Marão está completamente tapado por nuvens, apesar de não chover. Ouso olhar o horizonte em busca da Penha. Não sou bem sucedido. A estrada está livre de trânsito. Não demora muito e estamos na Terra banhada pelo Tâmega.
Dezasseis e cinco:
Mudo de camioneta e recebo a informação de que terei de o fazer novamente no Alto da Lixa. Peço encarecidamente ao senhor motorista que me avise quando chegar o momento de o fazer. Sou o único passageiro. Assim não será difícil de percebê-lo.
A viagem é, agora, mais lenta: os caminhos são tortuosos e estreitos e o volume de carros aumentou.
Dezasseis e trinta:
Alto da Lixa. O atencioso motorista lembra-se do meu apelo. Saio da camioneta e entro num autocarro parado na berma da estrada. Quase lotado. São muitas as crianças. Não é difícil perceber que são alunos de uma qualquer EB 2,3 das redondezas.
Fazem muito barulho e comportam-se como…crianças. O condutor informa-me, à entrada, de que teria de mudar de autocarro na Central da Lixa. E eu que pensava que era só em Amarante.
Felizmente, consegui arranjar lugar sentado. Sem sossego, é verdade, mas sentado. As crianças saem aos magotes em cada paragem, mas outras entram em substituição. Pergunto-me se alguma delas saberia, por acaso, o que eram as Nicolinas. Ideias que vêm e vão.
Dezasseis e quarenta e cinco:
Estou na Lixa. Tenho de esperar mais quarenta e cinco minutos para que a camioneta que me levará até Felgueiras chegue. Aproveito para comer qualquer coisa. Converso com um senhor já de certa idade. Ele conta-me que conhece bem Guimarães e revela-me o seu especial fascínio pela Penha. Como o compreendo!
Falo-lhe das Nicolinas, mas ele desconhece.
Dezassete e trinta:
O meu transporte chega. É claramente o de melhor aspecto. Instalo-me no assento e pelo vidro da janela aceno ao meu novo amigo (que, infelizmente, não conhece as festas de São Nicolau). Talvez um dia o volte a encontrar. Ou talvez não.
A camioneta segue para Felgueiras. Já é noite. A dada altura, pára. Não mais dali sai. Avariou. Quem diria? O aspecto engana.
Dezassete e quarenta e dois:
O motorista revelá que virá uma outra buscar os passageiros que ali se encontram. Dirijo-me a ele e explico-lhe que ainda tenho de apanhar uma outra para Guimarães. Ele explica-me que a das dezoito, que seria a minha, será impossível de apanhar, e que a próxima só arrancará às vinte horas.
São Nicolau! É isto uma qualquer maquiavélica provação?
Dezoito e trinta:
Chega o autocarro que nos levará até Felgueiras. Já quase que durmo. Não pode ser, hoje ninguém dorme. O telemóvel toca. É o Lúcio. Pergunta-me onde estou. Respondo-lhe que a caminho de Felgueiras (mas guardo as explicações para mais tarde). Não desliga sem antes me insultar por tê-lo feito esperar. Soubesse ele a aventura.
Chego finalmente a Felgueiras. Procuro um sítio para me sentar, longe do frio, que já é muito. São dezanove menos cinco. Não sinto os pés. Escondo as mãos dentro das mangas do casaco. Não me sento, preciso de saber o paradeiro da carripana que me conduzirá à ‘Terra Prometida’.
Vou ao posto de informações, mas não está lá qualquer pessoa. Procuro alguém que me possa informar. Não tenho sorte. E agora? Oiço um burburinho atrás de onde me encontro. Escuto nitidamente uma senhora a pronunciar essa palavra mágica que é “Guimarães”.
Volto-me instintivamente. Pergunto-lhe se sabe qual a camioneta a apanhar. Ela acena afirmativamente.
– Então menino, vai para o Pinheiro?
Finalmente alguém me falava no Pinheiro, nas Nicolinas.
– Vou sim, minha senhora. Nota-se muito?
Ela sorri. Conta-me que é de Fareja, mas a família do pai é de Mesão Frio. Palavra puxa palavra e o tempo, o mesmo das duas caras, passa rápido. Chega a camioneta.
São vinte horas e cinco minutos.
O motorista acelera até mesmo onde não é aconselhável fazê-lo. Deve ir ao Pinheiro, também. Jugueiros, Serzedo, Fareja, Infantas, Mesão Frio. Cruzamos todas quase sem parar.
Vinte horas e vinte minutos:
A Penha! Consigo ver a Penha! Agora sim, estou definitivamente em Guimarães. Já nada me conseguirá roubar o sorriso.
Vinte e vinte e cinco:
Largo da Condessa Mumadona. Saio da camioneta e oiço, em todo o seu esplendor, a poderosíssima batida, o som mais característico de Guimarães. Desço a Avenida Alberto Sampaio, ao longo da muralha, e cruzo-me com tantos e tantos discípulos da Velha tradição.
Ao passar pelo antigo ponto onde outrora se ergueu a Torre dos Cães, olho para cima. Não sei se por força da imaginação, vejo e ouço, sentados ao longo de toda a muralha, os Nicolinos do Passado, cantando o Hino de São Nicolau, numa alegria indescritível (e que as minhas humildes palavras mal conseguem nomear).
Olho de novo e já nada vejo. Sorrio e estremeço. Estou finalmente em Guimarães. E Guimarães é isto.
Doutor Celso Pusitório, Grão-Mestre da Ordem do Sanitário;
Pensador por vocação;
Vegetariano por moda.
