GENTE VIGENTE | Leonor Lima. Leo, para os amigos.

Por César Elias

A força de uma mulher, a ternura de uma menina, o brilho de uma personalidade sonhadora que parece nunca entristecer, são, entre muitas outras dádivas, coisas que só um humano tão especial em si pode carregar. E a energia que vibra das palavras que prazerosamente recebemos desta nossa convidada é alucinante, atordoa-nos a visão do mundo e a forma de consumir a vida. Raro. Raro é ser tudo isto. Raro é ser vimaranense, viver para a arte, sentir o próximo, amar os animais e abraçar o planeta, sonhar por si e por todos os outros, representar e impulsionar o significado de se ser mulher numa casa, numa aldeia, numa cidade, num país, no universo.

Leonor nasceu no embalo de uma família igualmente especial e que se principia pela dedicação à serenidade e bem-estar das pessoas e do espaço que habitamos. Recorda-nos tão orgulhosa de voar com a sua avó materna na aventura de recolher bens de primeira necessidade, de os distribuir com amor cárita, assim, tão crescida como uma criança que ainda merecesse o colo dos avós. E nunca mais parou. Voluntariar, sempre, é o que lhe faz borbulhar a pele e enternecer o sono, e é essa premissa para a vida que está irremediavelmente absorvida em tudo o que faz.

Licenciada em artes e desenho. Criadora. Acima de tudo, criadora. Conta-nos sobre o projeto “NeverlandArt”, a sua primeira grande experiência em manufaturação de roupa personalizada, bravamente alicerçada pelo seu eterno companheiro Nuno Fernandes, e que tanto a impulsionou até às margens do que hoje faz.

Leonor Lima traz na bagagem uma incrível lista de experimentos tão belos quanto enriquecedores, como por exemplo, vários projetos Juventude em Ação, projetos de educação não formal que promovem a mobilidade, inspiram cidadania, solidariedade, tolerância, envolvimento dos jovens na formação do futuro da União Europeia; “A partir da experiência do Juventude em Acão adquiri competências e qualificações transversais que me permitem adaptar à mudança e  assumir novos contextos, e dessa forma poder ajudar ativamente grupos de pessoas como desempregados de longa duração, pessoas com problemas relacionados com algum tipo de dependência, pessoas de etnias diferentes, migrantes e pessoas portadoras de deficiência”, revela-nos Leonor.

Sobre a experiência “Desincoop”, onde ainda hoje é participante, diz-nos, tão esmeradamente orgulhosa, ter sido fundada pela sua heroica e inspiradora mãe, Luísa Oliveira. A “Desincoop” é uma cooperativa que tem como missão promover o desenvolvimento económico social e cultural, os seus públicos-alvo são pessoas com problemas de integração social; “A minha experiencia na “Desincoop” tem sido sem dúvida uma das melhores experiências que tive na minha vida. Ter a possibilidade de trabalhar e ajudar diversas pessoas que por acasos da vida se encontram a atravessar fases complicadas, é extremamente enriquecedor tanto a nível pessoal como social, sendo que com estas experiencias adquiri maior abertura e aceitação da diferença e da diversidade, maior respeito pelas minorias, maior conhecimento da desigualdade entre membros da sociedade.”, conta-nos.

Mas desengane-se quem pensar que Leonor Lima é apenas tudo isto. É que de toda a sua voluptuosidade em lidar com pessoas, do seu olhar carinhoso e rosáceo, do seu toque sublime e subtil, nasce a incrível Leonor Lima tatuadora. Tudo aquilo que quis ser. E tudo aquilo que aqui dissemos se emaranha como um par de luvas de veludo na arte que a representa e identifica; “Quando comecei a sonhar ser tatuadora foi com base em juntar duas das minhas maiores paixões, a arte, como ofício, e que é ainda hoje um caminho em mutação, e o voluntariado. Ter tatuagens, para alguns pode parecer apenas algo estético, mas a verdade é que ter tatuagens ajuda imenso quem as tem, faz com que as pessoas se sintam mais confiantes com a sua imagem, ajuda a gostarem mais do aspeto do seu corpo, faz sentirem-se mais bonitas exteriormente. Isso é um fator muito importante para serem pessoas psicologicamente mais fortes e felizes. O nosso corpo carrega a nossa alma, ninguém pode escolher o corpo/aspeto com que nasce, mas ao longo da sua vida e com a ajuda da tatuagem é possível torna-lo em algo de que se se orgulhe e com que se se sinta confortável.  Saber que ajudo alguém a sentir-se mais bonito, seguro, confortável com o seu corpo e ter o prazer de colocar a minha arte no corpo de alguém para sempre é algo que me deixa muito feliz e me faz sentir muito realizada”.

Leonor Lima é tudo isto e muito mais. E o desafio é que todos a possamos visitar no seu estúdio, conversar, aprender. E, para quem gosta de tatuagens, para os que desejam uma eternidade no seu corpo, diferente de tudo o que já viram, um desenho único e marcante, “BlackWoods – Tattoo Studio” é o seu cartão de visita.

Leonor Lima, hoje, em entrevista exclusiva para a nossa rubrica “GENTE VIGENTE”. 

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GENTE VIGENTE: Sabendo que vives para a arte, para toda a criação que representa grande parte dos teus dias, diz-nos como é o teu Eu, o teu ser desta terra, a Leonor Lima em modo não-criativo.

Leonor Lima: Vivo numa busca constante por incentivos visuais e emotivos que uso posteriormente no meu processo criativo. Por isso penso que posso dizer que não desligo desse meu lado. Sou apaixonada pelo que faço e ter a possibilidade de o fazer diariamente faz com que também não sinta necessidade de me afastar desse meu lado. O meu trabalho é inspirado nas coisas que mais gosto na natureza, os animais e as pessoas.

Tenho muita vontade de conhecer e ver ainda mais. Defino-me assim como um ser sonhador, lutador, pois acredito que devemos lutar pelos nossos sonhos e pela felicidade, acreditar que os sonhos existem e que somos capazes de os alcançar se lutarmos muito para isso. Sou ambiciosa. Penso que posso sempre melhorar, aprender e conhecer mais, daí o meu sonho de viajar a tatuar pessoas de todo o mundo, absorver a informação de novas culturas, lugares e pessoas me podem transmitir o mundo para cada vez ser uma pessoa melhor.

GENTE VIGENTE: O teu trabalho remonta aos primórdios da civilização humana. No entanto, é um oficio em contante mutação. Prevês um futuro próspero para o que fazes? De que força necessitas para prosperar?

Leonor Lima: Sim. Prevejo um futuro próspero para o que faço, com crença de que com a enorme quantidade de artistas e registos diferentes que surgem, o público perceba que para cada tatuagem é possível optar pelo artista com o registo mais adequado ao que quer fazer. Sei que o meu estilo não agrada a toda a gente, mas esse também nunca foi o meu objetivo. Todos temos gostos diferentes e obviamente que com um estilo/registo bastante particular nem toda a gente se identifica. De qualquer forma quem tatua comigo participa ativamente no processo de criação, isto se não optarem por uma ilustração minha que esteja previamente disponível para tatuar. Essas lustrações normalmente encontram-se numa pasta chamada “Sketchbook” na minha página de artista do “Facebook”. Esses desenhos são criações com base no meu gosto pessoal e normalmente são representações de coisas que gostava muito de tatuar. Incluindo os meus clientes no processo criativo ofereço um serviço personalizado que garantidamente torna as tatuagens bastante únicas, porque elas são criadas a partir do gosto de cada cliente meu. Com a base cultural da sociedade a evoluir as tatuagens são cada vez melhor aceites pela comunidade, o que nos últimos anos tem impulsionado uma maior procura por tatuagens e um maior surgimento de novos artistas. É maravilhoso ver a quantidade de excelentes tatuadores que tem surgido e seus variados registos. O público tem agora uma melhor oferta como nunca.

Para prosperar preciso sem dúvida de uma grande projeção/divulgação do meu trabalho. As redes sociais, em especial o “Instagram”, são ótimas para isso. Nos últimos anos graças à divulgação do meu trabalho nesta rede social consegui chegar a pessoas fora de Portugal como nunca. o caso mais incrível foi uma cliente minha que viajou do Dubai para Guimarães para ser tatuada por mim com um desenho ilustrado por mim. Tatuar apenas em Guimarães faz com que não consiga chegar a tanto público, porque as pessoas preferem tatuar com outra pessoa do que se deslocar aqui. Isso deixa-me bastante triste, mas desde que comecei sempre tatuei mais gente de fora do que propriamente da cidade. Fico muito feliz em receber clientes de fora que quando e de os encorajar a conhecer a nossa maravilhosa cidade. Espero brevemente começar a tatuar fora da cidade, fazer “guests” em outros estúdios espalhados pelo país e pelo mundo. Nos últimos dois anos tive o meu avô materno doente, infelizmente acabou por falecer e preferi não me ausentar em trabalho para aproveitar o máximo de tempo com ele. Era sem dúvida uma das pessoas que mais admiro e a inspiração que ganhei ao passar muito tempo com ele supera o facto de não ter saído de cá. Eu acredito que o poder de realizarmos os nossos sonhos está nas nossas mãos, dessa forma só nós os podemos tornar possíveis. Trabalho arduamente para estar em constante evolução. Para mim a base de se ser bom no que se faz é faze-lo com amor e treino, no meu caso tanto a desenhar como a tatuar. Isso é o que pretendo continuar a fazer.

GENTE VIGENTE: O teu trabalho pode ter uma mensagem para o mundo? Para os artistas da tua geração, por exemplo?

Leonor Lima: Sim. O estilo ornamental, que mais costumo usar, é um estilo bastante espiritual. Quando crio uma peça normalmente utilizo diversos elementos e símbolos com simbologia positiva como o equilíbrio, a harmonia, o amor, a paz, a esperança. As peças tornam-se telas carregadas de mensagem e significado. São constituídas por complexos detalhes que como a minha avó por vezes diz, até fazem lembrar rendas complexas. Por vezes esses detalhes são pedidos pelos clientes, outras vezes coloco voluntariamente porque acho que se adequam à energia que sinto que o cliente tem ou necessita. A minha maior inspiração é sem dúvida a natureza e a noção de movimento, e está transmitida através de linhas sinuosas, pontiagudas e circulares. As tatuagens que faço carregam um grande peso sentimental que visa entrar em comunhão com o corpo e mente dos meus clientes. Com o meu trabalho espero fazer das minhas telas vivas seres mais felizes, que com a minha arte no seu corpo se sintam mais confortáveis com a sua imagem, ajuda-las a transmitir uma mensagem para os outros ou para si mesmos. O meu sonho era desde há muitos anos ser tatuadora. Lutei imenso para concretizar este sonho e agora estou a vivê-lo, com o meu estúdio próprio e a ter o prazer de conhecer pessoas com valores semelhantes dos meus e que me dão tanto orgulho em ter a possibilidade de os tatuar. Ainda sonho chegar muito longe, ser muito melhor no que faço, mas penso que sim, posso também transmitir a mensagem de que vale a pena lutar pelos nossos sonhos.

GENTE VIGENTE: Quem te conhece sabe do teu amor por Guimarães. Podes defini-lo? Que mensagem deixarias à tua cidade e a todos os vimaranenses?

Leonor Lima: Todos os Vimaranenses sabem que é extremamente difícil definir o nosso amor por esta terra. Como se costuma dizer, é algo que não se pode explicar, apenas sentir! Mas sim, posso tentar dizer algumas coisas que me fazem gostar tanto de ter nascido e vivido nesta linda cidade.

Guimarães é uma cidade muito inspiradora, cheia de pequenos detalhes que tornam interessante caminhar pelas suas ruas. Todos os dias descubro algo novo aqui. Aqui as gentes transpiram um espírito conquistador e de luta que me agrada bastante e com que me identifico. Somos uma pequena mas grande cidade de conquistadores com gente de muito talento e força. O meu amor é tão grande que, apesar de saber que se fosse trabalhar para o estrangeiro teria sem dúvida mais reconhecimento e oportunidades de crescimento profissional, opto ficar aqui. Ter que lutar muito mais, mas estar cercada da minha gente e de todo este património natural e histórico vale muito a pena. Quem viajar até Guimarães para tatuar comigo terá a oportunidade de conhecer uma lindíssima cidade, e conhecendo-a conhecem melhor a sua tatuadora.

Foto: JORGE SC