A exigência de consensos para grandes investimentos

Quando nos debruçamos sobre o país que somos e que gostaríamos de ser, envolvem-nos dúbios sentimentos sustentados por comportamentos coletivos contraditórios que tendem sempre a obstaculizar o nosso devir coletivo. Esta nossa propensão largamente maioritária tem antecedentes que nos conduzem aos primórdios da nossa História. Conhecemo-la desde as origens da legítima pretensão de sermos um povo autónomo.

Quando em finais do século II o general Sérgio Galba alcançou o extremo ocidental da  Ibéria, deparou-se e enfrentou os valentes soldados lusitanos, tribo de organização controversa que levou aquele general romano a defini-los como «um povo que não se governa nem se deixa governar».

Ao longo do nosso passado longínquo ou mesmo em recentes períodos da nossa História, deparámo-nos com comportamentos político-sociais antagónicos que, tantas vezes, puseram em causa o interesse coletivo da nossa sociedade.

Dito isto, transportemos a nossa conduta de outrora para as últimas décadas da nossa História. Sem esforço, encontraremos comportamentos de fação que, na prática, conduzem a resultados altamente controversos.

Este “modus vivendi” numa sociedade como a nossa, quer na dimensão nacional, regional ou local, não tem permitido a aprendizagem que se impõe com os erros do passado, por falta de um conhecimento histórico que, ainda que genérico, nos enriquece ou então por conceitos enraizados no cadinho de interesses tradicionais. Por isto e eventualmente por circunstâncias várias, recusa-se a assumir uma atitude patriótica quando o que está em causa não obedece à sua matriz. É verdade que não podemos mudar o passado, mas sustentados nele poderemos contribuir para um melhor futuro coletivo.

Tudo isto vem a propósito da pretensão do atual governo em realizar obras de grande fôlego se obtiver, para tais projetos, uma maioria de dois terços no Parlamento. A atitude é coerente e, em teoria, é de aplaudir, mas na prática, esta boa intenção pode levar à estagnação dos grandes investimentos de que o país precisa. Basta lembrarmo-nos de alguns projetos do nosso passado recente para fundamentarmos os receios que nos assaltam.

Todos certamente se recordam do que foi o rocambolesco processo da construção da Barragem do Alqueva. Rios de tinta correram abordando o tema. Cruzaram-se os mais díspares argumentos que apenas conseguiram atrasar a execução de uma fantástica obra, com as consequências orçamentais de todos conhecidas. Hoje, o Alqueva é aplaudido por todos quantos, de boa fé, reconhecem os seus incalculáveis benefícios para o país.

Permitimo-nos também lembrar o que hoje se passa com o aeroporto de Lisboa. À data, um projeto controverso em que tudo foi posto em causa. A visão estratégica da necessidade de uma infraestrutura daquela envergadura fazia todo o sentido. Ainda que se aceite a necessidade de melhor ponderação sobre a sua  localização, na verdade a polémica foi tão violenta e ruidosa que impossibilitou a concretização daquela infraestrutura.

Hoje continuamos sem aeroporto à dimensão de uma capital europeia, com os inerentes prejuízos para o país, não se prevendo solução digna a médio prazo para a sua execução. Não houve consenso, não há aeroporto, não se vislumbram recursos para a sua execução.

Em regra, reagimos com exigências de toda a ordem perante as tragédias, mas adormecemos quando é preciso trabalhar em vários patamares do conhecimento para os evitar. Todos, e digo todos, os que hoje se põem em bicos de pés para calcorrear a desgraça, não foram capazes de chegar a um consenso que pusesse a nu o que se passa no Portugal profundo. Se o fizessem, usariam a arma desse conhecimento para prepararmos o que urge evitar e que agora todos clamam ser necessário fazer.

Perante tudo isto, tenho dúvidas que um qualquer governo reúna a capacidade suficiente para levar à prática todos os projetos de que o país carece. A exigência da maioria de dois terços, com os atuais protagonistas parece de difícil concretização.

Se dúvidas houvesse na abordagem a este tema basta lembrar a recente votação relativa ao ordenamento florestal. Mesmo em cima da tragédia, o diploma em causa não obteve o apoio necessário para que o processo fosse consensualmente por diante. E mesmo que a vontade política fosse unânime, levar à prática tal desiderato enfrentaria tantas dificuldades no terreno que poria em causa permanente os objetivos a que se propunha e de que o país tanto precisa.

Pouco aprendemos com a História e os “velhos do Restelo” nossos contemporâneos continuam por aí. Como há anos alguém dizia: «É a vida!».

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).