O Tempo da Hipocrisia

A revista TIME elegeu como People of The Year os “Silence Breakers”, em português, algo como “quebradores do silêncio”,  ou seja, as mulheres e os homens que denunciaram publicamente as situações em que foram vítimas de assédio/ataque sexual.

A questão que me surge de imediato é onde estava a revista nos anos anteriores em que parte das denúncias já eram públicas e foram só ignoradas?

Todo este buzz em Hollywood e na indústria de entretenimento é uma óptima forma desta própria indústria se alimentar. A TIME encontrou uma capa que certamente muitas mulheres quer guardar para se recordarem do ano em que o tema do assédio sexual se tornou uma discussão pública.

O tema do assédio sexual não deve ter apenas visibilidade quando estamos a falar de pessoas famosas e, mesmo essas, vítimas e predadores, não devem ser tratados como material para aumentar vendas ou para o clikbait. É feio. Compreendo uma denúncia pública como uma forma de statement político com o objectivo de trazer luz para um assunto sério e que merece uma discussão pública, mas acho extremamente contraproducente quando usamos estas histórias para aumentar a curiosidade mórbida sobre os problemas dos outros e todos os detalhes são explorados ao máximo.

O que me parece que está a acontecer é mais um circo do que uma discussão pública. O problema do assédio sexual não está apenas na indústria do entretenimento e com as pessoas famosas. É um problema transversal a géneros, classes sociais e áreas de trabalho.

A resposta a isto deve e tem que ser uma discussão séria. Perceber que antes de ser um problema de machismo/feminismo, é um problema de poder. Sim, o assédio sexual em ambiente de trabalho é um exercício de poder e opressão sobre o outro e isto não é exclusivo do género feminino. Questionar as estruturas de poder e desenvolver mecanismos para que aqueles que têm menos poder tenham uma voz e um sistema que os ampare e proteja, parece-me o caminho.

Mas não é isto que vejo acontecer. Vejo mulheres a reclamar para si esta luta e, de alguma forma, a ver todo este circo mediático como uma vitória. Para mim, alguns despedimentos não contam como vitórias. Vitória será quando aqueles que abusam do seu próprio poder respondam sobre isso num tribunal, porque é nesse tipo de sociedade em que acredito. Vitória é quando as vítimas reconheçam nas forças policiais aliados e acreditem que os seus casos serão levados a sério em tribunal e que a justiça será feita. Vitória será quando as vítimas confiem num sistema legal e político que realmente as defenda e que seja célere.

A experiência da prisão de Stanford, em 1971, mostrou-nos o quão perigoso é as pessoas simplesmente desempenharem o papel que acham que a sociedade lhes reserva. A intenção deste estudo era estudar os efeitos psicológicos na vida da prisão, mas eu acho que podemos estipular isto para os demais aspectos da vida em sociedade.

Ora, eu não sei absolutamente nada de Ciências Sociais e Humanas, nem nunca as estudei, mas empiricamente parece-me absolutamente necessário repensar os papéis que cada interveniente desempenha nas estruturas de poder sob pena de cada um de nós se afundar no papel que acredita lhe estar destinados sem um pensamento crítico sobre si mesmo ou sobre aqueles que estão à sua volta. E isto, como já vimos, pode ser muito perigoso e, na vida real, não podemos apenas cancelar quando achamos que foi longe demais.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.