A subversão desportiva a que assistimos

Os atuais métodos de abordagem ao desporto rei, sobretudo por parte dos porta-vozes dos três clubes denominados grandes, introduziram uma novidade comunicacional, altamente preserva, que nada tem a ver com o fair play desportivo. Os seus efeitos, já bem visíveis, são propensos a toldar o comportamento cívico, não apenas os adeptos desportivos, mas também, por empatia, grupos de cidadãos que com eles se relacionam.

A violência verbal em crescendo vai assumindo dimensões preocupantes, não se confinando agora ao que acontece jornada a jornada. Para o golpe e contragolpe ser mais assertivo rebusca-se o passado e enfatizam-se os acontecimentos de outrora para tornar mais credível a defesa dos argumentos pretensamente desportivos de hoje. Esta perigosa deriva começa a influenciar o desporto de patamares de menor dimensão clubística, copiado à sua maneira por alguns dos seus apaniguados. À falta de não saberem ou não poderem verbalizar o modelo que os cativa utilizam métodos de agressividade circunstancial de todo deploráveis.

Começa a estar em causa o desporto tal como a sociedade que se preza o vê e aplaude. O que ganha lastro é o modelo de violência, de linguagem e de atos, às vezes quase abjeta, não respeitando nenhum tipo de valores. Usam perigosas «armas» ao seu alcance, cujos efeitos acabam por merecer o repúdio de uma importante franja de quem intensamente vive o fenómeno desportivo.

A propensão para exacerbar a clubite e as paixões que ela congrega determina o comportamento de muitos. Isto deveria sensibilizar os responsáveis de várias entidades face à gravidade que certos comportamentos indiciam. O desporto amador, e mesmo o profissional, não pode rever-se nos acontecimentos mais recentes. Na verdade, a essência dos debates e a adjetivação que nos chega, vinculada por certos programas de teor desportivo, que de desportivo pouco ou nada têm, se atentarmos aos valores e princípios que enformam o mundo do desporto.

Sendo o desporto servido por muitas pessoas de bem, como se justificam tais comportamentos? O «massacre» a que somos sujeitos em programas da especialidade têm ainda uma mais larga audiência quando os comentadores, à falta de outros argumentos, se socorrem de linguagem imprópria visando impressionar os amantes do desporto, particularmente os adeptos do seu clube de eleição.

O passado fim de semana deixou-nos um sinal claro do que poderá acontecer, porventura com sérias consequências que nos envergonham a todos. Se quem de direito não puser cobro a esta escalada verbal, onde tudo parece ser permitido pelos moderadores, as dimensões desportiva e social que tantos adeptos cativam banalizar-se-ão, domingo a domingo. Enquanto, para já, exageros pontuais são tolerados, mas já nefastos, se a proliferação dos mesmos assumir foros de grave indisciplina, então será tarde para se intervir e minimizar as consequências que daí poderão advir.

Há largos anos, nalguns países da Europa, certos hooligans iam destruindo a natureza do desporto tal como foi concebido e como o veem os cidadãos. As instituições desportivas com os respetivos governos assumiram um combate determinado contra tais exageros. Em consequência dessa ação concertada, com uma ou outra exceção, o projeto da erradicação da violência no desporto foi um êxito.

Sabemos que o calor das pugnas desportivas é sempre eletrizante e às vezes quase irracional. Está na hora de continuar a defender o desporto e o espetáculo desportivo e a alegria que propiciam ao povo. Em simultâneo urge abolir tudo quanto contribua para diabolizar uma paixão que, quando civilizada, enche o coração de milhões de portugueses que se reveem nos seus ídolos.

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).