Guimarães, a mudança também está a passar por aqui

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Este ano, nas Maçãzinhas, evento integrante das Festas Nicolinas, um grupo de raparigas do Agrupamento de Escolas Santos Simões subiram ao carro deste agrupamento na parte final do percurso.

Momento histórico, que, com muita pena minha, não pude assistir, mas com o qual fiquei muito feliz e orgulhosa das meninas que ousaram subir para aqueles carros, mesmo sabendo que a reacção da maioria das pessoas não podia ser das melhores.

Não sei quem são estas meninas, mas se por um acaso lerem estas linhas, desde já, o meu agradecimento pela vossa acção em nome do feminismo e das lutas pela emancipação feminina, o meu agradecimento pela vossa coragem e, deixem-me que vos diga, não estão sozinhas. Ao longo da história, mulheres ousaram intervir nas tradições e actividades que pertenciam aos homens para reclamar o seu lugar  de igualdade (consagrado na Declaração dos Direitos Humanos, consagrado na Constituição Portuguesa) na esfera pública e social. E é por estas mulheres terem tido a mesma coragem que vocês tiveram, que hoje, por exemplo, podemos votar ou desempenhar cargos políticos.

Ora, a Comissão de Festas Nicolinas decide responder a este acto com um comunicado repudiando a acção destas meninas. Lendo o comunicado, só me apetece citar o Diácono Remédios, o eterno provedor dos bons costumes e dizer “não havia necessidade”.

A Comissão responde com “repúdio” (credo, que escolha de palavras!) e diz estas belíssimas frases “A comissão respeita os movimentos feministas mas entende que esse tipo de movimentos não podem confundir liberdade e igualdade de género com adulteração de uma tradição enraizada nas gentes de Guimarães”.

Lembrando ainda que “as festas são em honra a São Nicolau e em honra das mulheres, tendo a mulher um papel crucial nas festas, e que durante todos estes séculos as mulheres foram o pilar e as grandes impulsionadoras deste tipo de festejos, mais concretamente as Maçãzinhas. A proibição de raparigas nos carros é só e apenas pelo facto de este ser o dia dedicado a elas.”

Primeiro, não nos deixemos enganar. Se a Comissão tivesse mínimo respeito pelos movimentos feministas não responderia com repúdio, mas com diálogo. As tradições não são estanques no tempo, mudam, evoluem, acompanhando a evolução da sociedade e do pensamento humano. E ainda bem que assim é. Este acto de repúdio claramente mostra o quanto a Comissão das Festas Nicolinas está aberta à mudança e à discussão. Depois, faz aquele velho truque dizer que a raparigas estão proibidas nos carros, só e apenas pelo facto de este ser o dia dedicado a elas. Onde é que já ouvi isto? Onde é que as mulheres já ouviram isto? Eu acho que as mulheres estão cansadas destas afirmações vazias. Eu, pelo menos, estou. Se o dia é dedicado às mulheres, porque não deixarem que estas escolham o que querem fazer?

Como Esser Jorge, refere e bem no artigo da publicação Mais Guimarães, “as Nicolinas eram (foram do Liceu e não da Escola comercial e Industrial assim recortando estatutos e as alunas não tocavam caixa nem bombo)” e ainda “A reivindicação da particpação das mulheres nas Nicolinas tem apenas a ver com a diferença entre o justo e o injusto.” Ou seja, as Festas também se foram adaptando ao longo do tempo à evolução da sociedade.

Não faltarão muitos anos até as meninas – estudantes reclamarem também o seu papel na comissão que organiza as Festas. Este foi apenas o primeiro passo.

2017 ficará marcado pela questão da igualdade de género. O dicionário Merriam-Webster elegeu o Feminismo como a palavra do ano. A luta em prol em prol dos direitos e interesses das mulheres em todas as esferas da vida humana veio para ficar. Habituem-se.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.

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