A quadra natalícia ontem e hoje

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A quadra natalícia tem para os seguidores da religião católica e para os cristãos, de uma maneira geral, uma simbologia profundamente vivenciada desde as suas origens. Com o evoluir da sociedade, as tradições festivas de Natal e outras foram-se, naturalmente, transformando, acompanhando o sinal dos tempos.

Sem pretender fazer uma análise descritiva que aborde as mutações sofridas ao longo de tantos séculos, vale a pena, apesar de tudo, sublinhar o que nos trouxe até aos nossos dias. Importância maior tiveram as várias adaptações que paulatinamente foram permitindo a secularização do religioso, apoderando-se de muitos dos seus mais marcantes eventos. Os vários instrumentos comunicacionais que os interessados em materializar o religioso possuem foram adulterando as tradições que alimentavam a alma. Foram substituídas por conceitos consumistas que exponenciam, para tocar a sociedade que os alimenta. É o consumismo no seu melhor.

O elemento comum que nesta quadra festiva robustece a sua componente religiosa é a família. Esse vínculo é a reminiscência de tradição secular que continuamos a querer sentir como nossa. Mesmo assim o Natal tornou-se presa fácil do materialismo a que dificilmente resiste.

A Igreja Católica que tem neste particular uma responsabilidade única, apesar dos seus esforços, não tem conseguido dar um contributo à dimensão do seu prestígio e da responsabilidade que lhe cabe. A sapiência secular que possui e que a caracteriza deveria permitir-lhe ir mais longe.

O Papa Francisco tem-nos dados múltiplas lições, condenando o que está mal na sociedade dos nossos dias e fá-lo interpretando genuinamente os princípios dos Evangelhos e da Igreja de que é Sumo Pontífice. Denuncia os (pre)conceitos do quotidiano proclamando a essência dos fundamentos da doutrina que professa e defende. Condena o mundano e enaltece o genuíno da sua /nossa doutrina, protegendo em suma as franjas mais vulneráveis da sociedade.

O Natal para lá dos sinais que tentam reforçar os laços de família nuclear e alargada é, em primeira instância, o tempo de cuidarmos dos nossos irmãos a quem a sorte não bafejou.

É nas cidades e nas aldeias, enquanto espaços de vivência de proximidade, que o espírito natalício mais se vive e reflete. Constata-se hoje que as cidades renderam-se, em definitivo, ao material e à vulgaridade, ignorando em absoluto o seu papel fundamental na formação ética e estética dos cidadãos. O Natal seria uma excecional oportunidade para os governos locais favorecerem os valores cristãos, nomeadamente a solidariedade e, ao mesmo tempo, a valorização da nossa cultura, com padrões de exigência e qualidade superiores. De facto, o feérico natalício no espaço público não pode adulterar as dimensões que caracterizam o património humano, material e imaterial, das cidades, elementos fundamentais da vida na «civitas».

Quem procura as cidades vem em busca de inovação e de diferenciação qualitativa. Ao não se verificar, as pessoas saem defraudadas e as cidades não cumprem o que as sociedades delas esperam. É a vulgaridade. É a falta de exigência. É a falta de qualidade. A tralha temporal por muito luminosa que seja não passa disso mesmo. As cidades não podem ignorar a dimensão qualitativa e referencial da sua carga histórica e simbólica, harmonizando estes fatores com a inovação e a contemporaneidade. As urbes são espaços onde se vive o presente, se sente o passado e se antecipa o futuro. Só compreendendo e respeitando esta visão se cumprem os desígnios da cidade de hoje e se constrói o futuro.

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).

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