Olá, Ilda, tudo bem?

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«Olá, Ilda, tudo bem?
Olha como faço uma mulher andar de bicla com o período?»

Fico a olhar para esta composição. Nem me incomoda a construção frásica. A questão é que, para mim, não há questão na questão do que está em questão! Eu preocupo-me lá com o período! Não penso no meu quanto mais no dos outros…das outras – sei lá, que já li acerca “menstruação nos homens”.

Paro. E não paro de franzir as sobrancelhas. Reviro os olhos. Mas que raio! Anda uma pessoa a treinar à chuva, debaixo da “Ana” e outras tempestades agora baptizadas («Bruno» é todos os dias desde 2000) e há gente que diz ao Coach que não pode ir treinar porque está com o período?!

Paro. Abro outro separador e analiso as minhas cargas de treino no Polar Flow. Abro outro separador e analiso a semana de treinos que vai iniciar amanhã. Mas quem é que em 2017 acha que não pode treinar porque está menstruada?!

«Bom dia…» E as reticências não fazem justiça ao tempo que me demorei a tentar escrever algo “educado”. «Ui! Para mim é óbvio: é andar de bicla como noutro dia qualquer!!! Mas… Sei lá…» Eu sei lá que tipo de mulher é aquela! Eu sei de mim e daquelas corredoras para as quais a bike está como a bola para o Costinha, a raquete para o João Sousa, as sapatilhas para a Dulce Félix e por aí em diante! Eu sei de mim e desta vontade de competir que nos cura a gripe, fixa as costelas partidas, pára uma hemorragia interna e mitiga as alergias. Eu sei de mim e de como é chorar não da dor duma caixa torácica hematofila mas da agonia de ficar fora duma linha de partida! Eu sei de mim e daquela dor que o Ronaldo chorou quando teve de ser substituído na final do Europeu! E este «amigo» está preocupado em fazer “uma mulher andar de bicla com o período”??! Pelo amor da Santa! Não quer, não anda! Fique no sofá a consolar o desconforto abdominal com uma caixa de chocolates daquela marca que começa por F que o Ambrósio não sabe como pô-la a andar de bicla! OMG!

Paro. Acabei um sprint. Foram watts a debitar coisas que eu nem sei se são para aquela mulher e para aquele treinador. A raiva deu lugar a quietude. Paro. Três minutos de recuperação até o pulso baixar.

Ele volta à carga. “Com tampões ou penso”.

«Com as pernas!» Não, não foi esta a minha resposta! Por esta altura já não escrevia a Ilda atleta. Estava no Messenger a Ilda pedagoga com uma séria queda para a Psicologia. “Tampão. Definitivamente, tampão. Até depende do dia e do esforço. Se estiver num dia de pouco corrimento, até pode ir sem nada. Com o exercício, vai parar.” Ups! Acabava de enviar uma frase bem ambígua.

Ele explica que a senhora quer perder peso e não sabe como fazer quando estiver com o período. Digo-lhe que terá de ter paciência com ela – acho que todos sabemos das transformações de humor que as hormonas causam nas mulheres “naquela fase do mês”. Por esta altura já só me falta enviar-lhe os links para o que a literatura científica, após um bom grupo de estudos com corredoras de elite, tem registado sobre «Structuring Training Around the Menstrual Cycle» mas fico-me pela Alfonsina (Afonsa Rosa Maria Morini), ciclista de estrada italiana e a primeira mulher a competir em corridas entre homens, como a Giro da Lombardia e o Giro D’Itália, com ou sem penso, tampão ou copo – “à homem”!

Ilda Pereira, 36 anos, licenciada em Ensino de Português e Inglês, na Universidade do Minho, e em Artes, na Escola Superior Artística de Guimarães. Foi oficial da Força Aérea e é corredora internacional de ciclismo desde 2010.

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