Sardões e Passarinhas: Santa Luzia celebrou-se durante o fim-de-semana

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O dia de enamorados e enamoradas trocarem as tradicionais passarinhas e sardões, a propósito das festas de N.ª Sr.ª da Conceição, realizada a 8 de dezembro, e de Santa Luzia, realizou-se a 13 de dezembro em Guimarães. O fim-de-semana também serviu para ir cumprir promessas.

No Pedido de Inventariação da confeção das passarinhas e dos sardões – processo para necessário para a inclusão no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, no sentido de prosseguir a candidatura a Património Imaterial da Humanida, pode ler-se que as «passarinhas» e os «sardões» enquadram-se num tipo de figurado simbólico de doces de romaria e que é produzido, exclusivamente, para ser comercializado nas festas de N.ª Sr.ª da Conceição, realizada a 8 de dezembro, e de Santa Luzia, realizada a 13 de dezembro em Guimarães.

A produção de figurado simbólico, tendo como base de fabrico as massas do pão, realizava-se, outrora, numa grande variedade de formas, sendo mais comum a modelação das figuras do homem, da mulher, de certos animais domésticos, da pomba, do sardão, e do coração. Atualmente, ainda subsiste, nalgumas zonas do país, o fabrico deste tipo de figurado, feito para ser comercializado nas romarias ligadas à celebração de um orago em particular. Em Guimarães, moldadas numa massa de farinha de centeio, e cobertas com uma pasta de açúcar, ainda se produzem, hoje em dia, duas figuras zoomórficas, representando, respetivamente, uma ave (passarinha) e um lagarto (sardão). Confecionam-se, igualmente, o «cãozinho», uma interpretação estilizada de um canídeo, o «relógio» e as «caixinhas dos segredos» (um sardão, uma passarinha e um coração – figuras com cerca de 5 cm modeladas em massa de fécula de batata, que são colocadas dentro de uma caixa em cartão, onde também se inclui uma frase de amor). Enquanto que as figuras do «caõzinho» e do «relóginho» são compradas para as crianças, de forma a serem consumidas como um tipo de brinquedo doce, as figuras da «passarinha» e do «sardão», embora também oferecidas às crianças com o mesmo propósito das outras figuras, são, maioritariamente, usadas entre os adultos como suporte de mensagens ligadas ao amor e ao namoro.

As «passarinhas» e os «sardões» vivem de uma prática simbólica do foro amoroso que acontece, em dias de romaria de N.ª Sr.ª da Conceição (8 de dezembro) e Santa Luzia (13 de dezembro). É tradição antiga, na festa da Sr.ª da Conceição, os homens oferecerem às mulheres o doce com a forma abstrata de um lagarto (sardão), e, no dia de Santa Luzia, as mulheres retribuírem o gesto, oferecendo-lhes o mesmo tipo de doce, mas em forma de ave (passarinha). Hoje em dia, perpetua-se a tradição da troca das «passarinhas» e dos «sardões» entre os casais, todavia os «sardões» já não são exclusivos do dia de festa da N.ª Sr.ª da Conceição e as «passarinhas» do dia da romaria a Santa Luzia, podendo ser oferecidas, quer uma figura ou outra, aquando as duas romarias. Estes doces, enquanto objetos ritualizados, possuem ainda um forte significado no campo social, com expressões que diferem de indivíduo para indivíduo. São, sobretudo, poderosos contentores de mensagens subliminares, cujo uso é reconhecido pela comunidade como fazendo parte de um costume antigo que acontece, anualmente, até hoje.

Fotos: Domingos Oliveira (CMG)

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