As eleições na Catalunha

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A Catalunha, ainda que do outro lado da Península Ibérica, ou talvez por isso, teve um papel determinante num período difícil da nossa História que nos foi particularmente favorável, enquanto aliada da indómita vontade de independência dos portugueses. Hoje, relativizando o passado histórico, cultivamos uma política normal entre vizinhos que se respeitam mutuamente. As relações políticas, sociais, culturais e educacionais são agora consonantes com os desafios que a globalização nos trouxe, bem como a integração na Comunidade Europeia, em que Portugal e Espanha alinham posições consonantes com os demais países da União.

A Catalunha sempre cultivou um estatuto de um certo distanciamento dos ditames de Madrid, como aliás outras regiões de Espanha. Sempre quis afirmar o seu «status» ainda que não tenha imposto reivindicações fraturantes. Assumia exigências, às vezes parcialmente satisfeitas pelo governo central, mantendo todavia (pelos catalães de gema) as pretensões independentistas, ainda que adormecidas. Desde há uns anos a esta parte, com os mais recentes governos autonómicos, percebeu-se o crescendo do fervor separatista, sendo este o lastro do que agora está a acontecer.

O último referendo, envolto em polémica e sobretudo nada credível, abalou, aos olhos de terceiros, as razões invocadas pelos dirigentes catalães quanto às respostas dadas por Madrid. Perante o mundo e particularmente no seio da Europa, o argumentário que usaram em sua defesa não teve acolhimento. A braços com problemas internos, a União Europeia não podia alimentar a fraturante deriva catalã, sobre pena de abrir um precedente insanável.

Não se pode olvidar a conduta  do governo espanhol no calor da atual refrega. Perdeu algum apoio popular, particularmente fora de portas, pelo exagero no tratamento de choque apanágio de uma “democracia musculada” de que quis dar provas. Infelizmente, particularmente para as partes envolvidas, nem as atitudes de uns nem as de outros resolveram o conflito. E durante a campanha eleitoral utilizaram uma linguagem tão agressiva que demonstra ser quase impossível um consenso a curto prazo.

Os resultados das eleições do dia 21 de dezembro, a confirmarem-se as sondagens conhecidas, vão tornar a Catalunha praticamente ingovernável. Não havendo uma força política claramente maioritária agudizar-se-á a fratura social por demais evidente.

A História diz-nos que, em situações similares à que se vive na Catalunha, outros povos entraram numa deriva de episódios traumáticos, ainda hoje marcantes nas suas populações. Daí os perigos que ameaçam todo este complexo projeto de radicalização independentista.

O governo espanhol, a concretizar-se as previsões mais pessimistas, tem de revelar a perícia que há pouco não teve, tal como em tempo útil não soube negociar e ceder a algumas reivindicações que permitiriam ultrapassar um processo que, a correr mal, se adivinha profundamente doloroso.

A acrescentar à sensível situação que a Espanha e a Catalunha enfrentam há uma complexa indefinição que está a minar a coesão da União Europeia. Há tantos sinais preocupantes sobre a evolução dos nacionalismos no seio da Europa que os valores e princípios que enformam a União já não são a cartilha por que muitos se regem.

O BREXIT, que nem no Reino Unido é consensual, o avanço da extrema-direita nalguns países do centro/leste europeu, a política errática de Trump,  deixam a Europa, que já foi coesa, à deriva, sem um escudo protetor e sem a união que, de facto, não existe. Nos areópagos internacionais a voz de Bruxelas já não conta. Enquanto isto, outras potências vão cercando o velho continente afirmando o imperialismo que historicamente sempre cultivaram.

Perante todo este turbilhão os acontecimentos na Catalunha são obviamente um problema menor, mas nem por isso deixa de o ser. Por razões várias, nomeadamente políticas e económicas, Portugal não pode ficar indiferente  à situação que a Europa enfrenta e à que se vive na Catalunha. O que parece claro, independentemente dos resultados das eleições na Catalunha,   a Espanha, com o aval  da União Europeia, imporá a ordem  que convém a uma e a outra.

Nota – Este artigo de opinião foi escrito antes de se conhecer os resultados das eleições eleitorais na Catalunha.

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).

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