Caridade, uma solução de emergência

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Logo será noite de Natal e quando o sol se puser e o frio vier, a casa iluminada encher-se-á dos cheiros que se prepararam ao longo da tarde. Pouco a pouco chegará mais gente, até que a mesa fique pronta, no calor da sala.

E “Tu que dormes à noite na calçada do relento/numa cama de chuva com lençóis feitos de vento/tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento/és meu irmão, amigo, és meu irmão”.

Como muitos outros, habituei-me à pobreza, polidamente controlada. Reconheço o privilégio de pertencer ao grupo de seres humanos abençoados pela vida: viver em paz, ganhar o suficiente para uma vida digna, conviver com as gentes da minha terra, meus amigos, usufruir de um espaço aprazível e, sobretudo, amar e ser amada.

De vez em quando, a par de algumas preocupações cívicas (e reconheço que, nesse campo, não me falta arrogância pelo simples e absurdo facto de almejar mudar o mundo, eu que nada sou), acontece-me ser confrontada por alguém, perturbador, que mais precisa. Dir-se-á nesta quadra: possivelmente praticar uma boa acção.

Há anos atrás, com regularidade semanal, um homem que se fazia entender por gestos, batia à porta de casa e pedia invariavelmente carne e óleo para cozinhar. Todas as vezes respondíamos com alguma coisa do congelador e o que tivéssemos mais à mão. A dada altura, a regularidade quebrou-se e, um dia, o homem fez-se acompanhar de um rapaz que ardia em febre. O menino não podia ir ao hospital, tinha explicado o homem que pediu medicamentos. Ficou no momento decidido ceder casacos quentes e administrar um antipirético acompanhado de alguns conselhos sobre como tratar a gripe da criança. A partir daí, o menino sorridente, já curado, apoiava o pai nas visitas semanais. Quando, alguma semana, os dois não apareciam, faziam-nos falta. Numa das entregas semanais, foi oferecida a minha bicicleta ao rapaz, facto que só vim a descobrir mais tarde. Tinham-se criado laços de dependência ao ritmo das visitas semanais que, vistos de fora, poderiam resumir-se a simples caridade, mas na verdade já assentavam no afeto e não o tínhamos percebido.

Outro episódio mais recente, põe em cena um homem, suponho que romeno, que muitas vezes está sentado na proximidade do Centro Comercial de São Francisco e estende a mão a quem passa. Eu regressava a casa e levava na mão um embrulho com um queijo, uma iguaria comprada na loja de queijos da Alameda e um pão, especialmente escolhido para o acompanhar. Preparava-me para uma degustação em casa quando ao passar pelo homem de mão estendida ignorei o seu pedido. No entanto, a palavra “pão” soou-me aos ouvidos. Hesitei e voltei para trás: não se recusa pão a quem o pede. Fui para casa com o queijo, já sem o pão.

Ainda, num dos anos mais recentes de crise profunda que nos parece agora longínqua, numa noite de inverno especialmente fria, deitou-se um homem, com um simples cobertor, à porta do centro comercial Villa. Durante o dia, o homem deambulou pelo interior do edifício fazendo-se acompanhar de uma mala tipo trolley. Nessa noite percebi que a mala continha tudo o que o homem possuía. Tinha descido para depositar o lixo, já tarde, e percebi os olhares desconfiados que tinham sido lançados pelos locais ao forasteiro durante todo o dia. Não havia memória de um sem-abrigo naquelas paragens. Lá em casa, um saco cama pousado no sofá servia para quem fosse ocasionalmente dormir na sala. Era o mais quente de todos. Peguei nele, desci e, depois de o abrir, cobri o homem que se manteve deitado, quieto e silencioso. Mas percebi a sua gratidão. Nunca mais voltei a ver o homem.

Deram-me a cana para pescar ou a oportunidade de a agarrar e, talvez por ingenuidade, ainda acredito que se pode fazer mais pela humanidade. A caridade é uma solução de emergência e não uma política de continuidade. A descida aos infernos que em algumas vidas acontece merece respeito. A caridade assente na redistribuição do desperdício do consumismo e da exploração excessiva dos recursos é, por outro lado, a maior das hipocrisias.

Contadas as três histórias, curiosamente, apercebo-me que não voltei a substituir a bicicleta, a jovem que dormia no sofá lá de casa passou a cobrir-se com simples cobertores e o queijo foi saboreado sem pão. Não sendo mais generosa que a maioria, devo concluir que nada do que foi dado fazia realmente falta.

Nesta noite mágica, esperamos viver o amor, aquele sentimento que nos liga enquanto irmandade. Esta Noite será um simples contributo dos povos de cultura cristã, uma noite iluminada, para glorificar o amor que dá a vida, o amor que dá esperança.

Feliz Natal.

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.

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