Querido 2017,

banner duas caras DNAR

Foi uma felicidade ter-te conhecido, mas estou muito feliz que te vás embora.

Depois da coça que 2016 foi, seria difícil seres um ano pior. Não diria que tenhas sido um mau ano, mas certamente foste um bocadinho agridoce.

Foste um ano de trabalho e de noites sem dormir. De ansiedade, stress, exaustão. Foste um ano de conquistas, de momentos bonitos, de construção. Muita! Deste-me tanta luta, mas consegui acompanhar-te e aqui estamos nós a dizer adeus um ao outro, em paz. Pensando bem, foste um ano bipolar e eu fui bipolarizando a minha vida contigo.

Dizem que na vida nada acontece por acaso e, por isso, perdoo-te todas as pequenas maldades que me fizeste e estou muito grata por todas as coisas boas que me trouxeste. Foste muito especial para mim.

Levaste-me a sítios incríveis e trouxeste-me pessoas incríveis. Foi contigo que a Capivara Azul – Associação Cultural nasceu e com ela o MODS Collective, o EGO e outros tantos projectos que estão no forno. Devolveste-me, também, o prazer pela escrita.

Não foi só para mim que foste bom. Também deste voz a dezenas de vítimas de abuso sexual e/ou abuso de poder que finalmente ganharam voz.  Trouxeste a palavra feminismo à ribalta, essa palavra estranha que as pessoas recusam sem saberem bem a certo o que significa. Espero que o próximo ano continue o bom trabalho nesta área. Eu, pelo menos, farei tudo ao meu alcance para isso.

Agora é tempo de dizer adeus. Como tudo na vida, tu também és efémero e vais embora para não mais voltar. Daqui a uns anos, terei a certeza que me vou lembrar de ti e recordar muitos momentos que aconteceram contigo. Mas assim é, os anos passam pela nossa vida e vão se embora sem que tenhamos nada a dizer sobre isso. Os anos acontecem-nos. Tu aconteceste-me e foste intenso.

Daqui a uns dias vou conhecer 2018. Não, não te irá substituir. Tudo na vida é insubstituível, os anos também.

Até sempre,

Luísa

PS.: Olá 2018! Estou ansiosa para te conhecer. Não espero muito de ti, mas se te puder pedir que tragas um bocadinho de bom senso a este mundo, agradecia-te do fundo do coração. Entre 2016 e 2017, o bom senso universal tirou férias e estamos todos desejosos que volte rápido. Ia pedir-te também que tragas menos individualismo e que tentes trazer o sentimento de comunidade à humanidade que há muito se perdeu, mas tenho medo que faças alguma coisa trágica para isso acontecer. Deixa estar, aos poucos havemos de lá chegar. Queria também dizer-te que gostava muito que, contigo, nos lembrássemos todos que vivemos num planeta comum e que temos de tratar melhor dele. 2017 esforçou-se muito nesse sentido e trouxe-nos várias catástrofes naturais para nos lembrarmos que tudo o que fazemos tem efeito no meio que nos rodeia, mas não foi suficiente. Talvez seja melhor tentares outra abordagem. De resto, só queria dizer-te: bem-vindo! Espero estar preparada para ti.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães. É, também, fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.

banner duas caras DNAR