As Residências Artísticas como porta para o Mundo

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O Ípsilon deste fim-de-semana traz um trabalho de leitura aconselhável em que explora algumas sedes de residências artísticas portuguesas, e os frutos do seu trabalho.

O trabalho de residência artística, do lado do “senhorio”, é um ato invisível, sem receitas nem bilheteira, sem cartazes nem capas de jornal. Pelo menos, durante o processo criativo em si.

Felizmente, algumas instituições portuguesas dedicam algum do seu espaço, e dos seus meios físicos e técnicos, ao acolhimento de artistas, nos mais diversos estágios de evolução, e nas mais variadas disciplinas, permitindo condições de qualidade para um processo criativo desapegado de formalismos e de obrigatoriedade de produtos finais.

Para o jargão de economês, a residência é a incubadora e o projeto a ser trabalhado é a start-up. Fosse a residência artística tão sexy de vender como o modelo que criou as maiores riquezas do mundo dos dias de hoje, e a perceção sobre o que se passa na Zé do Bois, em Lisboa, no Gnration, em Braga, ou no Centro de Criação de Candoso, em Guimarães, seria outra.

Este modelo, para além da riqueza que acrescenta a quem cria, permite a criação de elos, de sinergias e de cumplicidades. No enriquecimento de artistas locais que interajam com quem vem de fora, no imaterial local que é levado na bagagem de quem parte, no reconhecimento gerado pelo selo colocado no caso de existir um produto final ou nas relações que permitem futuras circulações e permutas.

Guimarães, através da Oficina, olha com especial carinho para as Residências Artísticas. Foram 25, ao todo, em 2017, no Centro de Criação de Candoso. E o Westway Lab, que volta em Abril, é o momento alto deste modelo no que toca à música. Entre Conferências, Workshops, Talks e Showcases, um pouco por toda a cidade, é um momento de efervescência da criação musical.

Mas não só de música tem vivido esta experiência, por cá. Luis Miguel Cintra, encenador e figura maior do teatro nacional, escolheu Guimarães para a estreia absoluta da última parte da sua peça “Um D. João Português”, no próximo dia 19 de janeiro, no Centro Cultural Vila Flor. Só que esta ligação à nossa terra não se inicia no momento da apresentação. O início do mês de Dezembro foi marcado por residência na Blackbox da Fábrica ASA, outro dos recantos que tantos artistas tem recebido.

É neste enriquecimento do tecido local, na promoção das infraestruturas e na inclusão de Guimarães em redes nacionais, europeias e mundiais, que pode estar a chave para o passo seguinte do panorama cultural vimaranense.

À porta fechada, dirão. Mas a abrir muitas outras para o Mundo.

Paulo Lopes Silva, 30 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Membro da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Foi membro da comissão de acompanhamento da Capital Europeia da Cultura na Assembleia Municipal. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.