Os contrastes nas celebrações de passagem de ano

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As festividades da passagem de ano em Portugal e no mundo, mesmo levando apenas em linha de conta o seu conteúdo feérico, permitem-nos percecionar as diferenças abissais existentes no planeta social em que vivemos. Por razões óbvias, o que toma conta do espaço mediático é a pompa, o luminoso, o exótico de certas paragens, e o exibicionismo que convive paredes meias com este fausto. Em simultâneo, mesmo ali ao lado, milhões de seres humanos apenas sobrevivem com as migalhas dos respetivos banquetes.

A pompa constitui um paradigma de certas franjas da sociedade atual mesmo fora de ocasiões excecionais, ainda que com nuances da marca distintiva que cultivam. Este estilo de vida não tem fronteiras e, consoante o meio, regista os mesmos padrões comportamentais por que se regem.

A sociedade foi capturada por poderosíssimos lobbies, muitos deles sem rosto, e cuja ponta do iceberg define e deixa adivinhar o poder económico que garante o seu exibicionismo. O espavento de uma efeméride marcante reflete apenas as habituais condutas do seu quotidiano.

Estes são alguns sinais da faustosa elite que coabita com tal modus vivendi. São numericamente pouco expressivos à escala global, mas vem-lhe daí, por isso mesmo, a singularidade que tão garbosamente cultivam. Convém, no entanto, atentarmos nos (anti) valores consumistas que nos vêm atingindo em doses condizentes com os recursos de cada um de nós. Estes não ocupam o espaço mediático tradicional, que dispensam o «vulgar», mas as redes sociais permitem-nos compreender os arremedos de imitação do fausto e do exibicionismo a que tantos aspiram, apenas tolhidos pelo potencial que lhes escasseia. Mas que o «vírus» anda por aí, parece óbvio.

Como contraponto a esta tendência egocêntrica é justo contrapor todos quantos cultivam outros valores e, muitos anonimamente, contribuem para minorar as nossas fragilidades comunitárias. Os militares protetores de quem foge do terror da guerra, as organizações do voluntariado que prestam assistência a quem dela carece, sobretudo o cidadão anónimo que pratica a solidariedade genuína, ajudando o próximo. A estes e a todos os que fazem da prática do bem a sua militância devemos o nosso reconhecimento e respeito pela invulgar cidadania. Estas práticas não são notícia, quando muito são-lhes dedicadas tímidas notas de rodapé que visam suavizar as consciências de uns quantos militantes do supérfluo.

Um merecidíssimo destaque para dois paladinos da crítica pedagógica que chega aos quatro cantos do globo. Em primeiro lugar é de sublinhar o exemplar combate que trava o Papa Francisco protegendo com a sua mensagem, límpida e acutilante,  as vítimas de todo o tipo de sevicias em todo o mundo. Em segundo lugar, é justo referir o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, que, conhecendo as misérias por que passam homens, mulheres e crianças em cenários de guerras fratricidas, não se cansa de apelar a todos quantos podem contribuir para minorar tal flagelo. Apesar dos seus apelos não serem ouvidos nem por isso esmorecem, reiterando as suas mensagens e apelos clamando pela paz, pelo respeito pelos direitos humanos, por um humanismo que urge reavivar.

O que nos chega é o luxo e a ostentação que, tantas vezes, demasiadas vezes, nos ofuscam e escamoteiam a pobreza, o desamparo, a solidão, o sofrimento, a incerteza de presente e a ausência de futuro dos desamparados da sorte num mundo onde impera o egoísmo e a ganância. E é a estes, que afinal são a maior fatia da população mundial, que o Papa Francisco e António Guterres, incansáveis, emprestam o rosto e a voz em apelos de solidariedade, de paz, de justiça social, de respeito pelos direitos humanos.

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).