À boleia!

Em Guimarães terminamos o ano de 2017com a espantosa informação de que o município descobriu a solução para colmatar o problema do direito à mobilidade dentro do próprio concelho.
Seria uma boa notícia, seria caso para beber uma taça de espumante e pensar que afinal quem luta pode vencer. Todos pudemos ler, na imprensa local: “Trata-se de uma iniciativa da Câmara que o Município diz ser pioneira em Portugal, pretendendo ser uma ajuda para vimaranenses e visitantes se deslocarem pelos diferentes pontos da Cidade e Concelho. ”
Apesar de não se tratar ainda do desenvolvimento do transporte público e ao direito dos cidadãos de acederem à saúde, à justiça, à cultura, à educação, chegamos a ficar comovidos com esta evolução do transporte individual para a nossa cidade.
No passado era frequente vermos as pessoas nas beiras da estrada com o polegar no ar a pedir boleia. Ora, nesse tempo os serviços de transporte público eram uma miragem, a evolução ainda não tinha chegado e a falta de uns trocos era um factor importante para recorrer à boleia. Mais tarde as pessoas começaram a adquirir os seus carros individuais e a boleia passou a ser vista como um acto de coragem. Sabes lá quem é a pessoa, não pares!
Os alunos das universidades portuguesas perceberam que seria mais barato partilhar o carro com os colegas, fazendo-o diariamente ou aos fins-de-semana para visitar a família sem gastar todos os trocos que serviriam para outras andanças académicas e facilitariam os orçamentos familiares. Eu própria partilhei carro quando frequentei a Universidade do Minho, já lá vão 17 anos, e era prática comum.
Em 2013 os alunos da Faculdade de Economia da Universidade do Porto e até os alunos da Universidade do Minho resolvem utilizar as redes sociais para que a boleia tradicional se transformasse em algo mais estruturado.
Depois a questão da boleia partilhada foi crescendo, sendo já uma realidade até para destinos fora do país. Assim a boleia passou a ser não só um acto de poupança, como um acto social em que se aproveita as viagens para se conhecer pessoas e passou a ser olhada como um acto de respeito pelo ambiente, retirando carros das estradas.
Afinal, não abram o espumante! O município não descobriu a solução para o problema do direito à mobilidade em Guimarães. O município apenas percebeu que era dos poucos municípios que ainda não constava do site boleia.net. É desta forma que a Câmara Municipal de Guimarães se quer tornar pioneira???
Aguardaremos que num futuro próximo se encontrem soluções de excelência para uma política real de mobilidade para Guimarães. Soluções concretas de conforto, de horários diversificados, de preços acessíveis para todos. Andar de transporte público pode ser barato, podemos conhecer pessoas novas, tanto no comboio como no autocarro, e existirão menos carros a circular reduzindo a emissão de CO2.
Não garanto é que fique mais barato para o orçamento da Câmara Municipal de Guimarães em comparação com o que pagou para que Guimarães constasse na lista de um site de boleias.