QUE NUNCA SE CANSEM

Com o fim do alvoroço das Festas Natalícias e a perspetiva de que finalmente o Inverno chegou acompanhado por uma maior apetência para o aconchego da casa, retiramos algumas lições destes últimos dias.

Estranhamente não senti especial necessidade da azafama das compras, nem do sentimento de que falhei com alguém a quem não desejei Boas Festas. Estes dias serviram para desfrutar da presença, da distribuição de abraços e beijos, das tarefas que ao longo do ano realizamos apressadamente e que nos podem dar tanto prazer, sobretudo podem e devem reunir toda a familia numa partilha natural de tarefas.

Estes dias foram, apesar de algumas tristezas pelo meio e mesmo nessas, a celebração dos afetos, dos verdadeiros afetos. De repente dei-me verdadeiramente conta que vivemos numa sociedade que não se preparou para mudanças tão bruscas, que afetam o nosso futuro e as relações que se constroiem e nos devem dar identidade e segurança.

Foram quase duas horas no aeroporto, em frente à porta de saída dos passageiros, que me suscitou esta reflexão. Duas horas em que não consegui conter as lágrimas que me corriam pela face e me uniam a tantos avós que esperavam os filhos e netos. Aqueles beijos prolongados, os abraços que compensavam todo o tempo da distancia, as crianças que saltavam para o colo amigo dos avós, com quem se habituaram a conviver através do ecran de um computador ou de um telemóvel, de repente, estava ali o calor verdadeiro, dos afetos que nos fazem tanta falta.

Foi nessas longas duas emotivas horas que percebi que muitos de nós não vão ter os netos no final das aulas, nem no almoço de Domingo. Assim como eles não nos terão quando a gripe ou outra maleita da infancia nos convoca para as suas casas, apoiando os pais que precisam de cumprir com as suas obrigações profissionais. E, mais tarde, quando as forças nos faltarem não teremos os cuidados dos que conhecem os nossos hábitos, as nossas preferências.

A mecanização que caracteriza os gestos dos cuidados às pessoas perdeu humanidade. Morre-se sozinho nos hospitais, sofre-se sozinho nos serviços onde se entra à espera que o que resta se apague. O aconchego de uma mão conhecida que nos acaricia ou dos lábios que nos aquecem é sujeito a horários apertados. Depois de uma vida intensa o fim devia ser algo tranquilo e menos solitário.

Vivemos, apesar de tantos progressos, em sociedades cada vez mais desiguais. Nem esta informação que nos invade a privacidade dos nossos dias nos trouxe mais felicidade, mostra-nos o lado cinzento dos que se deixam corromper pelo dinheiro e pelo poder, pela adrenalina que ambos estimulam e levam a comportamentos de total insanidade ou, a importancia que o parecer assumiu na vida das pessoas.

No meio de tudo isto, passam despercebidos os esforços titanicos de alguns que nos alertam para esta corrida desenfreada para a extinção das condições de vida neste planeta único, que é o nosso, ou, de outros tantos que sacrificam as suas vidas e o conforto dos seus paises de origem para denunciar o sofrimento dos que não têm voz.

Está na hora de parar e agir para devolver o verdadeiro sentido da vida aos nossos dias, aquele que muita gente procurou nas últimas semanas e deve levar na bagagem. Os afetos não se arrumam, como fazemos com os papéis que embrulharam as prendas, à espera de voltarem a ser utilizados no próximo Natal. Se tivermos que reinventar o seu uso, ajustar as nossas prioridades, vai valer a pena.

Nesta quadra dei comigo a eleger a minha figura do ano, porque ele interpreta à sua maneira, aquilo que me vai na alma. Obrigada Presidente Marcelo. Não se canse de falar de afetos, de estar junto das populações, de sair à noite com os voluntários, que nunca se canse.

Luísa Oliveira, licenciada em Serviço Social , formadora e consultora. Presidente da Cooperativa Desincoop – Desenvolvimento Económico, Social e Cultural, CRL da qual é fundadora, iniciou  a sua intervenção politica como deputada municipal e anos mais tarde como vereadora da Câmara Municipal de Guimarães.