“A esta hora, há alguém no mundo que está a trabalhar mais do que tu!”

And I don’t care! É que não me importo mesmo! Aquela necessidade de treinar logo pela manhã não se deve a uma comparação com o que outra atleta está a fazer. Aquele despertar antes do despertador e meter as pernas ainda doridas do segundo treino do dia anterior em cima do BlackRoll não é obrigação. Nada disto me é imposto por externos: é uma força interior!

Só que, de quando em vez, porventura muitas vezes, paro para me (re)posicionar. Não sei para onde vou, não sei o caminho. Sei donde vim e onde quero chegar. Cada manhã acordo com sede de treinar, sede de cumprir o plano de treino à risca – nem mais 1watt nem menos 1 batimento. Cada noite me deito a visualizar o dia seguinte: sinto a chuva naquela série; pressinto a roda traseira, fininha, a escorregar quando meter as mãos aos travões por causa dum carro que se atravessou; cheiro os doces acabados de fazer na doçaria da rotunda e alimento as pernas para uma subida até ao topo, alternadamente em pé e sentada!

Eu sei que nasci atleta, atleta da vida. Nasci com vontade de fazer tudo, de chegar rápido, de ir até lá onde ainda não fui. Nasci atleta e podia ter sido outra coisa qualquer que não corredora de ciclismo: podia ser (e sou) professora; podia (e posso) escrever, pintar (a mão para o desenho tem falta de treino); podia representar, apresentar um programa televisivo, cozinhar… Mas nunca houve arrimo nesse sentido.

Ao contrário da maioria das crianças que, mal ou bem, têm os anseios dos pais projetados nelas, eu fui fazendo o meu caminho e o mais importante era que não desse muito trabalho. Comecei a ler bem e bem cedo, a escrever e a manifestar talento para tal e para o desenho. Não havia missa nem festa para que não fosse convocada. Não deu em nada. O papi mostra a medalha que ganhei na prova de atletismo organizada pelo clube da terra, num desses regionais, quando andava na primária. Repeti o feito no 2º ciclo. Não deu em nada. A madrinha levou-me à ginástica e dei nas vistas. Repeti o feito nas aulas do colégio. Não deu em nada. Foram as aulas de música que me custavam não pela arte mas pela solidão numa paragem de autocarro em plena puberdade. Saía-me bem nos saraus (toda coquete como a mami queria). Não deu em nada. Depois veio o futebol e joguei em tudo o que podia. Estive no Aves e tive a minha primeira experiência na “liderança” associativa (criei a equipa no clube da terra). Não deu em nada. Fui para a Universidade, para um curso que desse um futuro garantido e descansasse os pais. Deixei os Números e optei pelas Letras – mais perto de casa, menos dispendioso, mais cómodo. Não deu em nada. Deixei o emprego, o marido e fui para a Força Aérea. Com distinção, passei os testes para pessoal navegante. Não deu em nada. Voltei à escola e a casa. Descobri o ciclismo. Deu em tudo o que tenho agora.

Não sabemos o caminho mas sabemos o que queremos. O que mais se quer para um filho é «A Felicidade». Trabalhe árduo nisso: esteja atento e sacrifique-se pelos sonhos dele. Ele pode ser o que quiser mas não espere que se torne num adulto para tornar à infância. Tudo o que tenho agora, tenho-o porque há quem me ampare: é o Bruno que, como uma mãe diz à sua filha, me diz “Tu podes ser o que quiseres!”. E eu acredito! Cada dia estou certa de que mereço do mundo «Tudo» e de que «Tudo» está ao meu alcance.

Everything I dream of, I’ll make it come true! Então, trabalho duro porque a sorte é para os que “acordam” cedo!

Ilda Pereira, 36 anos, licenciada em Ensino de Português e Inglês, na Universidade do Minho, e em Artes, na Escola Superior Artística de Guimarães. Foi oficial da Força Aérea e é corredora internacional de ciclismo desde 2010.