Cultura PSD

A política nacional foi marcada, ao longo das últimas semanas, pelas eleições internas do PSD. Dois candidatos há muito anunciados (especialmente Rui Rio, que esteve sempre à espreita, mesmo com o seu partido no poder) que protagonizaram uma das mais pobres campanhas de que tenho memória, no que toca às lideranças dos dois principais partidos portugueses.

Sem ideias para o país, sem uma visão de futuro e essencialmente centrados no combate pessoal entre duas personalidades com um caminho que sempre se cruzou, levando as discussões para as minudências do passado, esquecendo os desafios do amanhã.

Esta campanha contrasta, em grande medida, por exemplo, com aquela que levou António Costa a liderar o PS e a ser candidato a primeiro-ministro, numas Primárias que o opuseram a António José Seguro e que tiveram uma participação absolutamente histórica.

Desta campanha há um momento que infelizmente retenho com especial atenção: as declarações de Rui Rio, ladeado de André Coelho Lima, sobre a sua posição acerca da política cultural.

Disse o ex-presidente da Câmara do Porto que “uma coisa é dar subsídios públicos para espetáculos sem público, outra coisa é aplicar dinheiro em projetos rentáveis”. Ora esta declaração é todo um tratado. Mas nem precisava de saber, bastando olhar para a repressão a que ficou dotado o setor cultural da Invicta enquanto Rio dirigiu os destinos da Cidade.

Infelizmente há muito quem considere a Cultura um luxo e não reconheça nela o instrumento de contacto com outras realidades, de educação de várias sensibilidades e de elevação do individuo. Há muito quem não veja que esta aposta se centra na necessidade de dar acesso a todos a elementos diferenciadores que só estariam acessíveis a quem por eles pudesse pagar, seja na aprendizagem, seja no usufruto.

Há, infelizmente, quem olhe para a aposta cultural sob a base de uma análise financeira, fazendo contabilidades entre receitas com bilheteira e investimento nos espetáculos, fazendo tábua rasa de serviços educativos, de residências artísticas ou de eventos de porta aberta para dar Cultura a Todos.

Este pensamento tem representantes nacionais e locais. E, curiosamente, aquando da declaração estavam lado a lado. De um lado, o novo líder do PSD e candidato a Primeiro-ministro que sufocou a cultura portuense. Ao seu lado o líder do PSD local, e candidato a presidente da Câmara nas últimas eleições autárquicas, que defende o fim do financiamento à Oficina e tem nas suas gentes quem sugira o encerramento da Plataforma das Artes.

Um partido que nacionalmente extinguiu o Ministério da Cultura e localmente foi contra a construção do Centro Cultural Vila Flor.

Factos para que a memória não se apague. E para que nunca nos esqueçamos que o caminho de sucesso trilhado em Guimarães se pode apagar com grande facilidade se certo tipo de pensamento algum dia ganhar espaço.

Paulo Lopes Silva, 30 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Membro da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Foi membro da comissão de acompanhamento da Capital Europeia da Cultura na Assembleia Municipal. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.