A pretexto da vitória de Rui Rio

Como qualquer cidadão que se interessa pela coisa pública e, particularmente, quem vive a atividade política nacional e internacional com gosto, não pode deixar de acompanhar com atenção o que se passa no seio dos partidos políticos com representação parlamentar.

O PSD é ainda o maior partido português e teve um papel consequente com os seus princípios na consolidação da democracia em Portugal. Por isso, acompanhar e percecionar as políticas que as suas lideranças assumem é prever, de alguma forma, o que politicamente nos espera. O que acabo de afirmar não é exclusivo do PSD. As lideranças fazem a diferença.

O governo que hoje conduz a nossa vida política pôs em destaque todas as forças políticas que têm voz no Parlamento. O líder do PSD agora eleito deixou expressa a sua disponibilidade para, em certas matérias, concertar posições consentâneas com os superiores interesses do país, quer a nível interno, quer no que respeita às políticas comunitárias, quer ainda às inovações que os desafios da globalização nos impõem. A cumprir-se as intenções do novo líder, o PSD pode vir a ter uma outra orientação diferente daquela a que nos habituou nos últimos anos e, assim, ampliar o leque de soluções.

A liderança de Pedro Passos Coelho já não correspondia às expectativas e ambições dos portugueses e, viu-se agora, também não era mais politicamente confortável para muitos militantes do seu próprio partido.  O aparelho partidário que se julgava fiel ao ainda líder e que, aparentemente, deveria apoiar o candidato com ideias mais próximas confiou os seus votos a outro, com uma diferente visão e estratégia políticas, que se propôs cultivar, caso ganhasse a peleja eleitoral interna, como aliás aconteceu.

Apesar da sua verbe discursiva ser menos elaborada do que a de Santana Lopes, tão habituado que está às lides televisivas, Rui Rio impôs-se com a proposta mais densa e politicamente mais confiável para os militantes do seu partido. Não venceu quem detinha o mais extenso e «colorido» currículo político, mas sim aquele que passou a mensagem mais atual, mais objetiva, sem floreados retóricos, em suma mais prosaica e, quiçá, assertiva. Quando afirma, sem tibieza, que o “PSD não foi fundado para ser um clube de amigos”, ou ainda quando sublinha que o “PSD não foi fundado para ser uma agremiação de interesses individuais ou de grupo” enfatiza o que se julga saber e que ele afirma querer combater. Pela frontalidade com que, nestas duas frases, desmascarou fragilidades dos partidos políticos recebeu como manifestação de concordância e de reforço a maior ovação da noite vitoriosa. O que Rui Rio diz querer combater é o elemento primeiro da imagem negativa que a população em geral tem da vida política.

A falta de ponderação na hora de escolher quem assume responsabilidades públicas pode propiciar futuros comportamentos inaceitáveis na vida democrática. O que já hoje acontece, aqui ou ali, não é apenas o que critica Rui Rio, mas já ultrapassa tudo isso. Já não é o grupo de amigos que preocupa, mas sim a teia de interesses que um caudilho menor lidera, acorrentando personagens ainda menores à sua perversa vontade. Compraz-se com os tiques de  cidadania comatosa com que alguns, acefalamente, lhe prestam vassalagem.

A democracia em que nos revemos não pode permitir esta hedionda forma de estar e de fazer política e devemos atentar, com a responsabilidade que a todos e a cada um cabe, e combater vícios de grupos e de indivíduos cuja bússola aponta apenas para o seu ego.

Consciente deste retrato, e diria mesmo de prática de alguns, o Parlamento começa a dar sinais evidentes de definição de regras com vista ao combate de desmandos que alimentam as fragilidades da sua própria imagem. A sensibilidade da larga maioria dos cidadãos espera dos seus representantes, em todos os patamares de representação politica, uma conduta que não estigmatize mais a classe e a vida pública. Urge revigorar a essência da prática política e trazer-lhe a nobreza que define e sustenta a democracia, um Bem maior que nunca é demais exaltar.

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).