GENTE VIGENTE | Conceição Sousa

Por César Elias

Acredito que muitos ficarão surpreendidos por desconhecerem quem hoje vos apresento. Estarrecidos até. E isto de prazerosamente entrevistar ilustres figuras da nossa bela cidade já me quer parecer que, (desculpem a negritude) muito se justifica o primor que merece o nosso panteão municipal, não acham? Falemos de Conceição Sousa que, por muitas palavras que eu consiga enjeitar, nunca me parecerão suficientes.

Conceição é uma escritora Vimaranense. Só? Não, claro que não. Antes disso ela é uma mãe diligente, uma esposa veterana, uma professora contemporânea, uma mulher que ostenta uma armadura de fábulas e um incrível cinto de palavras que disparam certeiras à nossa imaginação.

Se algum de vós duvidou sobre a força de um sonho, do miserável e escasso tempo que nos é prendado no equilíbrio da vida, lembrem-se de Conceição Sousa, a mulher que nunca se conformou em ser aquilo que nunca quis ser. “(…) Já antes de frequentar a escola primária tinha interesse pelas letras porque o meu pai, embora na altura tivesse só a quarta classe, escrevia muitos poemas e deixava os papeis espalhados pela casa. Também encomendava muitos livros/ enciclopédias da Reader’s Digest e eu adorava folhear. Aprendi, penso que, em três meses a ler e a escrever porque queria muito escrever também. Na primária, decidi que queria ser professora (…)”. 

Licenciada em Línguas e literaturas Modernas, escreve poesia, romances, textos dramáticos, contos infanto-juvenis, aforismos, e afincadamente cogitou e desflorou os estudos em literatura inglesa, alemã e norte-americana. Nos seus escritos são notórias as influências de Kafka, Brecht, Mary Shelley, Shakespeare e, naturalmente, de uma alma vimaranense.

Hoje apresentamos algumas palavras com esta nossa conterrânea que apesar de tudo é de um carácter reservado, disciplinado, prático, e afincadamente comprometida com o trabalho e o orgulho familiar.

Hoje, em entrevista exclusiva para a nossa rubrica “GENTE VIGENTE”:  Conceição Sousa.

GENTE VIGENTE: Vives intensamente o mundo das letras, do ensino, da literatura e da ficção, do conhecimento e da aprendizagem. Mas do outro lado és mulher e mãe. Existe necessidade de criares uma separação entres esses dois mundos, ou tudo se conjuga naturalmente?

Conceição Sousa: Tudo se conjuga naturalmente. A questão, como muito bem colocou, representa um todo no qual me revejo e não há como distinguir e separar a mulher, da mãe, da filha, da irmã, da esposa, da escritora, da professora, da “dona de casa”, da eterna estudante, da criativa, etc. São tudo partes de uma personalidade e da sua rotina, como as de outra pessoa qualquer. Não há nada de invulgar ou especial a dizer. Apenas que, como qualquer outra pessoa, tenho o cuidado de salvaguardar tudo o que é do foro pessoal, familiar, privado. Quanto ao resto, no âmbito profissional, é público: serviço público.

GENTE VIGENTE: Calculo que queiras continuar a publicar. Qual a tua opinião sobre o mundo editorial português?

Conceição Sousa: Primeiro, sim, quero continuar a publicar. Segundo, a minha opinião sobre o mundo editorial português é que é regido por interesses económicos e, dificilmente, um autor desconhecido, com qualidade, consegue avançar com os seus projectos. As editoras não estão dispostas a investir, a arriscar num autor que não é conhecido do grande público. Exigem um investimento pessoal do próprio autor, em termos financeiros e de tempo, para além do próprio trabalho intelectual, e o autor acaba por se sentir desmotivado. Por outro lado, o autor, se quer ser lido, além de dedicar o seu tempo efectivamente a escrever, tem de ocupar um outro tanto a divulgar o seu trabalho, a dirigir-se aos locais para apresentá-lo, a partilhar excertos na Internet, a deslocar-se aos correios para enviar os livros, ou seja, acaba por se ver como trabalhador nas áreas da escrita, da edição, do marketing, da venda, etc, a custo zero. As editoras poderiam fazer mais o seu trabalho e deixar os escritores ser escritores. Observo que publicam os autores de sempre ou figuras conhecidas do grande público. Acredito que haja muitos autores com grandes obras na gaveta e que a literatura esteja estagnada. Muito do que se vê nas grandes superfícies comerciais não tem qualidade, mas, pelos vistos, o público compra porque a cara ou o nome é o que conta.

GENTE VIGENTE: Tendo em conta a tua abordagem criativa a vários géneros literários, o que podemos esperar do teu trabalho futuro?

Conceição Sousa: Romances, contos infanto-juvenis e livros de poesia. Argumentos para novelas e cinema, não, porque não considero apelativo. Peças de teatro também não, porque preciso de aprofundar os meus conhecimentos na área. 

GENTE VIGENTE: Como escritora vimaranense, qual a tua relação com a cidade?

Conceição Sousa: Guimarães está profundamente enraizada na minha alma. E, subtilmente, descrita na minha obra. Como qualquer vimaranense lhe dirá: eu sou Guimarães, Guimarães sou eu.

Bibliografia :

Eu ou Ela, livro de poesia, edição de autora, 2010
pontas soltas:nós, Poesia, Ed. autora, 2011
ai.como dói. esta dor., Poesia, Ed. autora, 2011
Tala, enquanto cura e nasce., romance, Ed. autora, 2012
Um doce Travo a Fel, poesia, Ed. Autora, 2013
Podes ir, mas não sem antes voltar., Poesia, Ed. Autora, 2013
Em Busca da Flor de Mil Cores 1, Bugalhudo e Caracolitas no Bocejo do Vulcão, conto Infanto-juvenil, Ed. Autora, 2013
Em Busca da Flor de Mil Cores 2, Bugalhudo e Caracolitas na Armadilha do Céu, conto Infanto-juvenil, Ed. Autora, 2014
Em Busca da Flor de Mil Cores 3, Bugalhudo e Caracolitas no Lago das Letras Flutuantes, conto Infanto-juvenil, Ed. Autora, 2014
Fica, romance, Chiado Editora, 2015
Se é p’ra cair, tenho tempo, romance, Chiado Editora, 2017

https://www.facebook.com/conceicao.sousa.731