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“Não coma a vida de garfo e faca. Lambuze-se!”. Mário Quintana
Mezanino é o nome de um nível situado entre o piso térreo e o primeiro andar, normalmente rebaixado, de um edifício. E o que é que isto tem a ver com restauração? Tudo, porque no Mezanino Finger Food & Bar, recém-aberto no centro histórico de Guimarães, a essência está no detalhe.

O espaço é confortável, a decoração é intimista, o serviço é exemplar. O facto de lá trabalhar a minha prima Patrícia … não é pura coincidência 😛 Parece que estamos em Londres, só que não… Estamos no coração de Guimarães e é bom estar num lugar assim.
A carta do restaurante, mais que inteligente é atraente, oferecendo pequenos pratos de fusão, a maioria para compartilhar.

À chegada fomos recebidos no piso que dá nome ao restaurante com um cocktail fresco, ligeiramente adocicado, que teve o dom de preparar o palato para a refeição que estava prestes a ser iniciada.

Como entradas tivemos o equilíbrio e riqueza aromática dos lagostins com rúcula e molho branco que ganharam expressão com o molho agridoce, a simplicidade saborosa dos espargos, presunto e ovo onde o ovo fez a ponte gastronómica entre a voluptuosidade do presunto e a frescura dos espargos, a originalidade dos cornetos de salmão, a riqueza, cremosidade e leveza dos charutos de chevre e mel e a surpresa dos cogumelos recheados com queijo parmesão e banana frita.

Esta última entrada foi a que menos resultou em imagem mas a que mais me surpreendeu, por ser inesperada, eficaz e complexa. Combina de forma muito particular a doçura da banana, os aromas terrosos dos cogumelos e a gordura picante do parmesão.

Esta finger food foi harmonizada pelo vinho verde Quinta da Pedra Alvarinho 2011, provavelmente o meu Alvarinho favorito (tirando o Tempo de Anselmo Mendes, mas esse pertence a outro campeonato). Os citrinos, as notas minerais, as sugestões florais e os aromas gentis de maçã, abacaxi e maracujá dão-lhe um nariz muito elegante.

O palato revela um vinho suave, untuoso e com uma incrível acidez que lhe dá frescura, firmeza e comprimento. Acompanhou ainda as Gyosas de frango e legumes, crocantes e carregadas de sabor, algo salgadas e com um “caldo” que equilibra o interior muito suculento.

Logo nas entradas deu para perceber que os produtos são cuidadosamente e criteriosamente selecionados com apresentações originais, pensadas para celebrar o convívio, propondo a partilha em torno de uma boa mesa. Se são daqueles que não gostam de partilhar comida, acho que este Mezanino vos vai fazer mudar de opinião…

Esta ideia da partilha de alimentos é predominante nas culturas asiáticas, especialmente na China onde surgiu. É mais do que apenas maximizar a diversidade de alimentos à nossa disposição, há também um aspeto social muito importante, incentiva-nos a ficar mais tempo, a interagir mais, a viver mais. Podemos até pedir pratos principais diferentes, para termos uma experiencia mais enriquecedora e heterogénea.

O ligeiro fumo, casca de laranja, mineralidade e acidez do Quinta Maria Izabel Branco 2016 combinaram muito bem com a frescura e maresia do Robalo de Mar acompanhado com puré de batata-doce, brócolos, espargos e cenoura baby. O prato ganhou um pouco de estrutura e corpo com a riqueza, intensidade sensualidade do puré de batata-doce. Os brócolos e cenoura subtilmente adocicados criaram um contraste muito engraçado com os restantes ingredientes.

O Naco de lombo de boi grelhado servido em cama de puré de castanha com maçã caramelizada e espargos foi a iguaria que se seguiu. Ao cortar a carne parecia que estávamos a cortar manteiga, de tão suave e delicada que era. Para além dessa textura incrível estava muito suculenta, intensa, rica e saborosa.

O sal que serviu para a temperar e ligou de forma magistral com a madeira do Quinta da Curia Clefs D’Or tinto 2010. Essa madeira combina muito bem com a castanha, que por sua vez faz realçar o aroma dos espargos. Enquanto tudo isto acontece no nosso palato, há ainda mais uma interação a surgir entre a doçura do puré a doçura da maçã caramelizada, que faz engrandecer todo o prato.

O vinho traz ainda consigo especiarias e fruta preta em forma de ameixa, amora e mirtilos, que tornam esta harmonização muito feliz. Depois deste bom momento enogastronómico, o capítulo seguinte no jantar foi narrado por duas sobremesas.

Mil folhas de frutos vermelhos e supremo de chocolate. Começo pelo chocolate, em diversas texturas, com diferentes intensidades e pintado com alguma excentricidade através da introdução de aromas a laranja que iriam harmonizar melodiosamente com o Champagne.

O B. J. Barbier Bruto esteve ainda capaz de suportar a grandiosidade do Mil folhas de frutos vermelhos, que me fez regressar à infância, quando o mil-folhas, o meu bolo favorito de então, era sinónimo de pequeno-almoço de domingo. Muito estaladiço, saboroso e acentuado, ganhou diversidade e comprimento na cremosidade do recheio e no brioche, maçã e fisális do Champagne.

No final ainda houve tempo para uma agradável conversa com a gerente Filipa Ribeiro, banhada pela frescura, doçura e leve adstringência de um cocktail de café.
Desde as entradas até à sobremesa, nesta noite foram desfilando uma série de pratos, saboreados com os dedos e com os talheres, todos eles pensados para se enquadrarem na filosofia no espaço. Confesso-vos que no início não percebi esse conceito, por se encontrar entre dois mundos.

Não é fine-dining mas tem jantares vínicos, não tem cozinha de autor, mas também não segue receitas convencionais, quer ter uma atmosfera super-descontraída mas ao mesmo tempo tem o espaço mais confortável e com melhor ambiente da cidade berço.

Enquanto conversava com a minha esposa sobre isto ela disse que a virtude do Mezanino é essa mesmo: “queres ir com uns amigos a um sítio com boa comida, sem grandes formalismos mas com atendimento cuidado e com uma excelente carta de vinhos, vens cá…”
A virtude, afirmou Aristóteles, escolhe o meio-termo, aliando o melhor entre dois mundos, o Mezanino faz isso na perfeição.
Rua João de Melo
4810-131, Guimarães
253 115 131
http://www.restaurantemezanino.pt/
