A experiência do exercício do poder

Nas últimas semanas, dois vultos da vida política do pós 25 de abril concederam duas longas e interessantes entrevistas na revista do semanário português de maior tiragem. Nelas abordam com profundidade os problemas do país e do mundo e a sua governação, com a visão que a sua larga e rica experiência lhes permitiu cultivar. Assentam os seus pontos de vista, sempre muito assertivos, nessa experiência de vida, mas também num conhecimento teórico, citando e acompanhando nomes sonantes da política internacional, que são para ambos modelares nos conceitos da gestão da coisa pública. Lamentavelmente, os conceitos que eles exaltam e valoram vão fenecendo nos nossos dias.

As entrevistas aqui referidas são as recentemente dadas pelo Dr. Jorge Sampaio e pelo General Ramalho Eanes, dois ex Presidentes da República que, cada um à sua maneira, marcam o período democrático do nosso país. Enquanto Presidentes, um e outro tiveram de vencer obstáculos, de uma maneira geral, com êxito reconhecido, e com uma visão atual partilham com os leitores a experiência que acumularam, mas mais do que isso, ambos evidenciam um espírito crítico e pedagógico, com evidente lucidez. Abordam o que nos nossos dias não está bem e que urge corrigir, para que a sociedade democrática, sempre complexa, possa trilhar o caminho certo.

O seu pensamento realça os problemas tradicionais de um povo, abordando-os numa perspetiva nacional e internacional, sempre com suporte teórico e ideológico relevantes. Sublinham as virtudes do povo português, mas também referem as suas fragilidades. Exaltam a sua conduta nas horas difíceis, mas criticam-no quanto às euforias pontuais de natureza consumista. Tentam explicações para aquilo que julgam ser as razões do comportamento de uma franja da nossa sociedade. Ao mesmo tempo, evidenciam as assimetrias sociais de um mundo globalizado a que não podemos fugir. Mundo onde coexistem os que nada têm e os que ostentam escandalosos estilos de vida, por mera ganância e exibicionismo.

O mundo ocidental, muito especialmente a Europa ocidental, enfrenta muitos desafios novos, entre os quais a procura em massa de refugiados de guerra, da fome, e de cunho religioso. Desafios a que não se tem sabido dar resposta capaz. Pela enorme experiência e prestígio nacional e internacional, o Dr. Jorge Sampaio dedica a este tema/ problema uma parte interessante e substantiva da sua vida e isso vê-se refletido na entrevista que concedeu. Conhece bem o problema e dá-lhe uma importância singular que é respeitada e admirada nacional e internacionalmente.

Pela experiência que tem da vida partidária, o Dr. Jorge Sampaio faz uma crítica atual e assertiva ao papel dos partidos na vida política, hoje. Mas o General Ramalho Eanes também não deixa escapar o tema. Reconhecem a importância dos partidos em democracia, mas sublinham o afastamento dos cidadãos da vida político-partidária, sobretudo dos mais jovens.  E apontam o desfasamento dos partidos face à realidade e o consequente empobrecimento  da democracia representativa. De facto, o populismo avança galopante em vários pontos do globo e mesmo na Europa há sinais claros deste fenómeno. O que se passa na Polónia, na Áustria, e mesmo na Alemanha e na França, são sinais preocupantes da fragilidade das democracias ocidentais.

Os problemas do Portugal profundo não lhes passam à margem, bem como o que urge fazer para implementar as soluções possíveis para combater as assimetrias regionais. Ramalho Eanes assume sobre o tema uma opinião corajosa quanto à pequena propriedade, problema sério face aos conceitos ancestrais ainda dominantes. Defende que o interesse coletivo deve sobrepor-se ao interesse individual, sempre que tal se justifique e vê a Constituição, não como um espartilho, mas como uma garantia.

A abordagem aqui feita peca por ligeira e sucinta, por isso não dispensa a leitura das entrevistas pela riqueza de conteúdos e de pontos de vista que ambas encerram. Julgo valer a pena confrontarmo-nos com o pensamento de quem deu contributos maiores para a democracia em Portugal, ao longo de tantos anos de reconhecido serviço público.

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).