Antes que termine Janeiro (ainda temos o ano inteiro)

O mote foi dado no artigo que escrevi no meu blog, ildapereira.com, a propósito da causa / movimento Veganuary e, agora que Fevereiro escapa ao tempo, sinto que chega aquele momento em que começa “um ano inteiro de competições”.

Janeiro foi um mês de eternidade, o que me levou a participar em dois eventos desportivos para quebrar a “rotina” do plano de treino – sem que haja nele timbre monótono que os tons estão bem pautados pelo maestro. Dois eventos de organizações e caráteres bem distintos: um do calendário oficial da Federação Portuguesa de Ciclismo (o Campeonato Nacional de Ciclocrosse que, simultaneamente, coroou os atletas do Minho) e o outro de caráter recreativo (a Resistência 3H BTT Vila Franca Blisq Creative). Porém, desengane-se o leitor que não espera encontrar em ambos os mesmos atletas de Competição com licença emitida pela UVP-FPC (Federação Portuguesa de Ciclismo). Aliás, se nas categorias femininas algumas atletas (mais viradas para uma vertente) deram lugar a outras, nas categorias masculinas marcaram presença nomes bem vincados do BTT (e da Estrada) e de alto gabarito da elite nacional (e espanhola). E porquê?

Ora, o ciclocrosse passou já por várias fases em Portugal: depois de um início em que a resposta não foi muita, houve um período em que foi entendido como uma “pré-época” (uma preparação, em contexto, para as provas do calendário de BTT e / ou Estrada). Porém, logo aqui se percebeu que, sobretudo num país da dimensão do nosso e com a cultura desportiva que nos assenta, este empenho e investimento justificariam para alguns atletas mais aptos à vertente uma performance já num nível mais elevado (para o momento da época) – e, assim, estas provas são já a época destes. Todavia, “antes que termine Janeiro, ainda temos o ano inteiro” e atletas e treinadores sabem bem, nos dias de hoje, preparar-se para vários picos na temporada. Logo, é normal, e deseja-se (para a modalidade e para a vertente em concreto) que num Campeonato Nacional, dadas as circunstâncias (e a conjuntura), os atletas respondam ao apelo e marquem presença (estabelecendo os seus próprios objetivos).

Por outro lado, o BTT tem assistido nos últimos anos a um acréscimo constante de praticantes com réplica no número de eventos organizados (federados ou não). Por hábito refiro-me à bicicleta como o maior elemento de democratização das populações e é certo que ela veio criar uma igualdade de oportunidades entre os aficionados da modalidade. Assim, se, como é lógico (e só legalmente possível), no caso do Campeonato Nacional de Ciclocrosse apenas se puderam encontrar os atletas de competição com licença atribuída pela FPC, na Resistência 3H BTT Vila Franca todos os praticantes, atletas com licença competição, cicloturistas, amadores, utilizadores esporádicos, entusiastas da “ginga”, todos se inscreveram para este evento. Sabendo do que os liga, o que distingue? Eu diria que nada mas O Nada é já a (a)creditação d’ O Tudo. É a natureza, o ego, o intrínseco, o pessoal e intransmissível que faz com que um mesmo evento possa responder às necessidades individualizadas (sendo que por individual se pode entender também o coletivo de uma equipa que ali leva os seus atletas para os preparar para a época ou de um grupo que ali encontra uma forma recreativa de desfrutar da tradicional e alegre saída de domingo). No final, todos e cada um realizaram os seus objetivos – todos e cada um, desde o cadete ao fotógrafo da organização, regressaram a casa humildemente conscientes do seu papel.

Janeiro, em que alguns dos atletas lusos alinharam nas mais “tempranas” provas UCI de “nuestros hermanos”, terminou. Há que ir para o ano inteiro. Desta forma, de Melgaço e de Vila Franca, com o melhor que de lá podemos extrair, vamos (cerca de 600 atletas de 21 nacionalidades) até à Valenciana Oropesa del Mar, na província de Castelló, Espanha, para a Mediterranean Epic – “Máximo nivel deportivo y circuitos muy seleccionados, carrera categoria UCI XC S2 (…) con 4 etapas XC Maratón durante los días 8, 9, 10 y 11 de Febrero y se esperá una gran participación tanto de deportistas élite nacionales e internacionales, como de deportistas amateurs que quieren disfrutar a su rtimo de una prueba de máximo nivel!”

Eu que vos escrevi?

Ilda Pereira, 36 anos, licenciada em Ensino de Português e Inglês, na Universidade do Minho, e em Artes, na Escola Superior Artística de Guimarães. Foi oficial da Força Aérea e é corredora internacional de ciclismo desde 2010.