A resistência à mudança na Igreja Católica

O Pontificado do Papa Francisco, inovador no regresso às origens do espírito cristão, tem originado uma grande resistência dos setores mais conservadores da sua Igreja, a começar pela Cúria Romana. Quando o Papa Francisco, logo no início do seu magistério, traçou  as linhas mestras da sua ação eclesiástica, assistiu-se a um grande regozijo religioso dos cristãos atentos a um mundo novo. Em simultâneo, os detratores de uma doutrina mais atual consonante com os dias de hoje, organizavam-se, resguardando-se, contra a abertura da Igreja Católica que o novo Papa promovia e prometia. As palavras assertivas do Papa Francisco calavam fundo nos seus seguidores, positivamente surpreendidos com a inovadora interpretação dos Evangelhos.

A popularidade do Papa Francisco foi crescendo com a sua intransigente defesa dos valores originais da Igreja, sempre sustentado nas palavras de Jesus Cristo. Magnânimo, compassivo, sofredor com os seus semelhantes, o Papa não julga nem condena os outros e renega conceitos que, ao longo dos séculos, tomaram caminhos que os desviaram das origens. Dedicou-se com uma coragem notável ao apoio aos pobres, aos refugiados, aos marginalizados da sociedade, sempre em defesa do humanismo cristão, pedra angular dos princípios religiosos que professa. É contundente na crítica ao fausto, ao poder fútil, à ganância, a tudo quanto fragiliza a dignidade do ser humano. Esta reiterada postura granjeou-lhe o respeito e a admiração de cristãos e não cristãos.

A Igreja em Portugal, tradicionalmente conservadora, embora com núcleos assumidamente defensores do Concílio Vaticano II, vê-se agora a braços com uma crítica contundente e generalizada dirigida ao Cardeal D. Manuel Clemente, pelas suas controversas palavras relativas à vida sexual dos casais católicos recasados. Segundo o Cardeal, os católicos recasados que queiram aceder aos sacramentos devem manter abstinência sexual.

Esta postura publicamente assumida pelo Cardeal D. Manuel deixou muitos de nós, católicos e não católicos, surpreendidos, ou mesmo estupefactos. Sabemo-lo reconhecidamente inteligente e culto e aquando do seu Bispado no Porto não nos permitiu antecipar tão gritante inversão interpretativa dos princípios da religião que abraça.

No verão passado, perante a seca que se viveu em Portugal, já nos havia surpreendido quando exortou os portugueses a rezar para que chovesse. Então, muitos de nós regressaram no tempo e às aldeias da nossa origem. Perante estiagens semelhantes, as populações simples e ingénuas lançavam apelos aos párocos para que lhes acudissem. Alguns, mais argutos, esperavam o anúncio das primeiras nuvens e acediam à realização de clamores. Em procissão, as gentes devotas e em sofrimento acompanhavam a imagem da Virgem até junto do rio ou ribeiro mais próximo, suplicando a bênção das chuvas. A Virgem repousava aí, normalmente numa capela ou nicho, até que o “milagre” acontecesse. Depois, sempre em procissão, agora de ação de graças, regressava ao seu lugar de origem.

A abstinência sexual agora defendida pelo Cardeal D. Manuel exige outros critérios de análise. Estes implicam conhecimentos doutrinários que os simples clamores de outros tempos não exigiam. Esta postura contraria de forma clara a posição do Papa Francisco de aceitação, de abertura, de não julgamento dos outros, para além de significar a intromissão na vida dos casais. A leitura que D. Manuel Clemente fez deste tema é tão sensível, mesmo no seio da Igreja que milita, que mereceu uma reação veemente de gente comum e de considerados teólogos e de muitos especialistas leigos. De facto, aquela afirmação não é nada benéfica para o reconhecimento social de uma Igreja milenar e de dimensão universal como é a Igreja Católica.

Muitos dos mentores reativos à mensagem e pontificado do Papa Francisco, e que ocupam lugares de destaque no seio da Igreja, não parecem compreender que se a Igreja não acompanhar os tempos em que vivemos, sempre sem desvirtuar os seus valores e os princípios, correm o risco de a descaracterizar e de a afastar da sociedade e das pessoas. De acordo com a doutrina do Papa Francisco, a Igreja não é o edifício, mas sim todos aqueles que a sentem e vivem no seu quotidiano. Afastar-se e afastar as pessoas significa perder a sua essência.

As recentes mensagens do Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, não casam com a imagem de D. Manuel Clemente, então Bispo do Porto, nem com a Igreja do atual Sumo Pontífice.

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).