“Só os fracos têm medo da sombra”

O recente Congresso Nacional do PSD e as ondas de choque que vem provocando permitem-nos ter uma ideia clara de como funciona a ação política em Portugal, particularmente, ainda que com diferenças de circunstância, nos dois principais partidos políticos do país. Quem acompanha por dever militante ou cidadão interessado, as peripécias, às vezes comezinhas, durante os momentos altos da vida partidária, lembrar-se-á ainda de um conjunto de casos que aconteceram no último congresso do Partido Socialista, em tudo similares à ressaca do recente congresso do PSD.

Nos partidos políticos, mesmo em tempo de calmaria, que corresponde ao período em que exercem o poder, existe sempre um conflito latente, jogadas de bastidor, traições mesquinhas, que a sociedade em geral abomina, mas que no seio dos partidos, com a capa de que na política vale tudo, ascendem ao patamar das “virtudes” dos seus autores. Daqui resulta a leitura que o cidadão comum faz da vida política partidária, ainda que não conheça os escaninhos de emaranhado de ciladas que germinam com abundância no seio das agremiações políticas. Quase sempre o objetivo de condutas escusas e tortuosas visa o interesse pessoal ou de um grupo organizado, predisposto a distribuir as prebendas do poder entre si e os seus servidores. O primado da defesa do interesse nacional nem sempre é a razão primeira da sua existência. Lamentavelmente, a política a nível mundial deixou de ser guiada por valores maiores e princípios éticos que tantas figuras nacionais e internacionais marcantes nos legaram.

A disputa política à liderança do PSD, protagonizada por dois militantes com curriculum reconhecido, permitiu clarificar os pares relativamente ao que os diferenciava e as propostas políticas que levariam para convencer os congressistas. Rui Rio e Santana Lopes, duas figuras marcantes do seu partido, têm perfis diferentes, mas que lhes permitem ambicionar a governação do país. O combate foi ganho por Rui Rio, personalidade mais sóbria, menos exuberante, mais contido, ainda que contumaz. Santana Lopes, apesar do apoio do aparelho do seu partido e das suas qualidades de tribuno, que cultivou durante décadas, saiu derrotado e sentiu a derrota como um principiante. Porém, na abertura do Congresso os dois candidatos resolveram, literalmente, dar as mãos para enfatizar a imagem de unidade, numa encenação para consumo externo.

Já tanto foi dito por muitos politólogos e fazedores de opinião, todavia continuará a especular-se sobre aspetos de pormenor, o que sempre acontece em reuniões magnas, como são todos ou quase todos os congressos. A afirmação de um líder não se resume apenas ao que se passa no congresso, mas na sua capacidade de gerir o que se lhe sucede: a agitação dos lobbies, os projetos políticos internos dissonantes do seu, as vaidades não alimentadas com lugares com que sonhavam, os relacionamentos institucionais com outras forças políticas e outros.

Sabe-se, e o congresso deixou claro, que Rui Rio tem muitos anticorpos no seio do partido que agora lidera e os ajustes internos bater-lhe-ão à porta como se deixaram adivinhar. A imagem encenada de unidade não vinculou muitos dos seguidores de Santana Lopes e os sinais foram e são mais do que evidentes, a pretexto de tudo e de nada. Há ainda uma franja de militantes cuja ideologia e forma de fazer política os aproxima mais da democracia cristã. A frontalidade que carateriza Rui Rio, e que ele assume, também não agrada a muitos dos seus pares. Afastado dos “rodriguinhos” parlamentares, que nunca cultivou, por não ser matriz do seu ADN, Rui Rio perde vantagens para a coesão do seu partido e para a sua afirmação como líder.

Os media, apreciadores de jogos florentinos, são os primeiros a denunciar a evidente falta de gongorismo discursivo que Rio exibe. A base partidária que lhe é hostil aplaude em silêncio. Em suma, enquanto lider não se lhe reconhece vida fácil, já que o perfil e prática não se enquadram nas normas vigentes nos “corredores” do Palácio de S. Bento.

O título escolhido para este bocado de prosa e o discurso que o integrava, pronunciado pelo ainda deputado Luís Montenegro, escalpelizados até à exaustão, como já se calculava, foram e são a pedra de toque do que aí vem. O ataque cerrado e quase intimidatório dirigido a Rui Rio, apenas por ter sido candidato e, por vontade do eleitorado social-democrata, ganhador, não se justificava a nenhum título. Aconteceu, sim, porque Luís Montenegro incorporou na sua verbe as suas legítimas ambições e foi, simultaneamente, porta-voz do retirado Passos Coelho, circunstancialmente impedido de fustigar o novel líder.

“Só os fracos têm medo da sombra” é uma expressão prenhe de conteúdo, porém deslocada, de momento. Serviu apenas para fragilizar ainda mais Rui Rio no duro combate que tem para organizar e unir o partido. Mas não foi esse o objetivo daquela intervenção tão aplaudida? Claro que foi!

 

António Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).