Conto de uma simples história de vida

João vivia feliz. Era um homem robusto e formoso. O porte atlético, a tez branca como a neve, os olhos azuis-esverdeados expressivos e enternecedores, os cabelos negros lisos e brilhantes e a face macia seduziam facilmente o mais pétreo dos corações. Emanavam dele uma serenidade e benevolência tais que era adorado de uma forma bizarramente consensual. A sua energia invulgar e gentil contagiava todos os que o orbitavam.

Apesar de muito cobiçado amorosamente, permanecia teimosamente solteiro e plenamente dedicado à causa humanitária que abraçara como profissão. Gandhi, um rafeiro desengonçado que adoptara, ainda cachorro, fora a sua única e fiel companhia. O pêlo preto eriçado, o corpo esguio, os olhos lânguidos e o focinho curto e disforme davam a Gandhi um aspecto cómico, mas meigo. Ele acompanhara João para todo o lado sem trela. Estranhamente, Gandhi entendia as regras da civilização humana e comportava-se sempre de forma adequada à circunstância sem que nunca tivesse recebido qualquer espécie de instrução. João labutava árdua e prazerosamente num campo de refugiados.

O sofrimento que presenciava diariamente era atroz, mas um altruísmo desmedido carburava-o e alentava de forma hercúlea refugiados e colegas. Mesmo quando Gandhi mergulhara no sono eterno, induzido, com a devida autorização do dono, numa clínica veterinária depois de lhe ter sido diagnosticada uma doença incurável que o deixara caquéctico e num sofrimento inqualificável, ou quando o melhor amigo, José, partira consumido por uma doença oncológica para a qual recusara um tratamento com potencial curativo, nunca perdera a vitalidade que o caracterizava. Ficara obviamente triste com o desaparecimento de ambos, pois amara-os. Mas, encarava a Morte, a única coisa certa na Vida, da maneira mais natural possível, pelo que aceitara com placidez o desaparecimento de Gandhi e respeitara, sereno, a decisão do amigo.

A forma como lidava com as situações dramáticas, sem precisar de qualquer tipo de clausura sôfrega, era um exemplo para os outros. A única vez que João precisara de um período de reclusão fora aquando da morte do irmão gémeo António alguns anos antes. Mas fora também a partir desse trágico acontecimento que ele ficara definitivamente de bem com a Vida e com a Morte. António, de biótipo e temperamento similar a João, sofrera um trágico acidente e ficara imobilizado numa cama, paralisado do pescoço para baixo, sem qualquer possibilidade de recuperação. Plenamente consciente e emocionalmente íntegro, solicitara, por diversas vezes, que lhe induzissem o sono perene, mas em vão. Perante a recusa, num dia solarengo, com a brandura e tranquilidade que sempre o tinham caracterizado, grato pela vida que tivera, António partiu por iniciativa própria, inundado pelo líquido escarlate que jorrou da lesão lingual auto-infligida. João entendera a decisão, mas sentira necessidade de se afastar do mundo durante algum tempo para reflectir acerca de como António abandonara a Existência. A frase “O melhor presente que se pode dar a alguém é impedi-lo de sofrer” que lera, então, no livro “A Porta”, de Magda Szabó, esclarecera-lhe em definitivo a forma como se relacionaria com a efemeridade da Vida…

Luís Fonseca, nascido em 1978, é Licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e especialista em Psiquiatria. Exerce a sua actividade profissional em funções públicas no Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital da Senhora da Oliveira em Guimarães. Imbuído de uma veia artística ecléctica desde tenra idade, tem-se dedicado à escrita e à música, tendo já editado vários trabalhos nestas áreas (PáginaWebLuísFonseca).