Preto!

O meu primeiro contacto com pretos foi na Guiné, quando fiz o serviço militar. Uma aproximação lenta, que se tornou quase normal, ao cabo de algumas semanas e deu para fazer amizades, ao longo da comissão.

Irritava-me com facilidade, quando via o modo como, a maioria dos militares, tratava os habitantes da vila e das aldeias vizinhas, que frequentavam o quartel por vários motivos. Várias vezes arrisquei ser agredido, quando reagia ao ouvir chamar, “barrote queimado” a alguém.

No entanto, a pior experiência passou-se com a senhora que me lavava a roupa. Duas vezes por semana, Lucinda trazia, para mim e outros “clientes”, a roupa impecavelmente lavada, brunida sem nunca trocar uma peça.

Entrava na caserna e ia entregando a cada um, a sua rima de camisas, meias, calções, etc. e vinha sempre com José, o filho de dois anos, sentado às costas, num pano que atava por cima do peito nu.

O problema era que, à medida que ia avançando, encontrava sempre alguém que abusava, apalpando e tentando arrastá-la para a cama, ao som dos incitamentos dos colegas. Os meus protestos, contra semelhantes atitudes, valeram-me, de quando em quando, o colchão molhado e, por vezes, ter de o ir buscar ao meio do capim.

Estes episódios, com mais de quarenta anos, avivam-se na memória, cada vez que acontecem atitudes racistas, seja em que lado for, mas muito mais se acontecem na cidade/concelho onde vivo.

Grupos de indivíduos que invadem o local de trabalho, de profissionais de futebol, agredindo quem trabalha. Deixei de ir aos estádios porque, os meus vizinhos de bancada, gritavam como macacos sempre que um preto, da equipa adversária, tocava na bola.

Quando, num jogo entre equipas juniores, estando um preto nas proximidades, um espectador lança este insulto:

Ó preto do c*”&?»”#, de branco só tens os dentes!

Há poucos dias, um jogador do Vitória foi vítima de insultos racistas, por parte de adeptos do próprio clube. Mais recentemente chegou-me ao conhecimento, que atitudes destas passam-se nos escalões ainda mais baixos, por parte de miúdos de 12/13 anos e respectivos pais.

Ainda mais recentemente, nova onda de violência, à volta de um jogo de futebol.

Num dos últimos jogos a que assisti, fiquei chocado quando comecei a ouvir uma criança, que não teria mais de sete anos, a chamar nomes ao árbitro, que fariam corar qualquer trolha.

Numa cidade que ainda respira os ares de Capital Europeia da Cultura ou de Cidade Europeia do Desporto, que medidas tem sido tomadas, no sentido de eliminar estra praga racista e xenófoba, que assolam a nossa região?

Terá de haver um esforço conjunto, por parte das entidades políticas, sociais, desportivas e culturais, no sentido de erradicar, através de campanhas de sensibilização, esta praga que atenta contra a liberdade e a democracia.

Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.